A história da construção com madeira

12 de julho de 2016

O professor da UEL, Everaldo Pletz, fala sobre o início da discussão acerca do tema no mundo, os grandes desafios ao longo dos anos e o que falta para a madeira se tornar ainda mais popular

Uma discussão que tem ganhado cada vez mais força, mas que ainda tem um longo caminho pela frente. Assim é a relação entre a madeira e a construção civil. Apesar de o mundo estar de olho na sustentabilidade, no Brasil esse tema começou a se tornar popular na última década. Em países como os Estados Unidos, por exemplo, 90% das casas são construídas com madeira. Mas, aqui, o preconceito e a falta de conhecimento ainda são barreiras para o desenvolvimento da sustentabilidade na construção civil.

Para entender melhor a evolução dessa discussão, o portal Madeira e Construção conversou com o professor Everaldo Pletz, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que é engenheiro formado pela UEL e doutor em Engenharia de Estruturas pela Universidade de São Paulo (USP). Pletz é um dos grandes incentivadores do uso da madeira como matéria-prima para a construção no Brasil e já publicou diversos artigos sobre o assunto. Nesta entrevista ele fala sobre o início da discussão acerca do tema no mundo, os grandes desafios ao longo dos anos e o que falta para a madeira se tornar ainda mais popular. Acompanhe a entrevista a seguir.

Como começou a discussão sobre o uso da madeira na construção civil? Há quanto tempo esse tema vem sendo discutido? Como foi a evolução dessa discussão?

Os primeiros projetos técnicos, se assim podemos chamar os primeiros desenhos de detalhes construtivos, são chineses, com mais de 1000 anos de idade. Depois disto, os japoneses aperfeiçoaram estes detalhes. Mais tarde os europeus se destacaram na produção de novas técnicas de construção usando a madeira. O primeiro grande questionamento sobre a sua utilização ocorreu no século XIX, quando surgiram as estruturas de aço e de concreto armado. O segundo grande questionamento foi patrocinado pelos movimentos ambientalistas, já na segunda metade do século XX. E em 2005, na Conferência Mundial sobre Construções Sustentáveis em Tóquio, no Japão, a madeira foi eleita como o material do futuro sustentável.

Em resumo, atrás de todos estes desdobramentos históricos esteve sempre presente a discussão sobre o uso da madeira. E esta discussão, agora já amadurecida, chega ao ponto da compreensão de que o mundo moderno precisa aumentar a utilização da madeira na construção civil de forma sustentável, com preocupação com as questões sociais, econômicas e ambientais simultaneamente.

É preciso ser dito que esta discussão nem sempre foi ética. Muitas vezes ela envolveu grupos que atacaram a utilização da madeira, com discursos heréticos e falsas verdades, porque defendiam interesses de setores industriais produtores de outros materiais de construção. E também é importante dizer que esta discussão não pode deixar de lado os aspectos sistêmicos que caracterizam a questão. Não há como abordar a questão apenas a partir de uma visão exclusiva a um ponto de vista. Neste sentido há ainda discurso confuso, equivocado e absurdo, querendo salvar o planeta através da eliminação do uso da madeira. Felizmente, já é consenso na comunidade internacional que a madeira é o grande material de construção para vencer os desafios do século XXI.

Quais os grandes desafios ao longo desses anos? 

Acredito que, principalmente no Brasil, o grande desafio foi lutar contra a visão preconceituosa contra a utilização da madeira na construção civil – herança cultural deixada pelos portugueses e espanhóis para a América Latina. Acrescento, ainda, outro problema enfrentado: a decorrente falta de cultura construtiva em madeira, que se desdobrou em erros construtivos nas poucas vezes que se tentou construir em madeira.  Estes erros reforçaram o preconceito existente. Hoje, precisamos quebrar este circulo vicioso, dotando a cadeia da construção de madeira, desde a floresta até a manutenção, de tecnologia invadindo os produtos e processos.

Antes, havia pouca tecnologia para se construir com madeira. Isso era uma dificuldade?

Definitivamente sim. E hoje temos que avançar no sentido de integrar os elos da corrente da cadeia da construção em madeira, para que com abordagem multidisciplinar a qualidade final seja oferecida ao mercado. Com exemplos bem sucedidos, poderemos nos tornar cada vez mais receptivos. Agora é o momento de todos os agentes envolvidos com o desenvolvimento deste mercado trabalharem com todo profissionalismo em prol do crescimento do setor. Os erros e acertos individuais afetam a todos os participantes da cadeia. Por isso, é preciso ter consciência de que esta é uma empreitada coletiva.

Na sua opinião, houve avanço ao longo dos anos?

Com certeza sim. Hoje já temos toda a cadeia implantada. Ela precisa apenas crescer e ganhar corpo. Já temos institutos e universidades engajadas na produção de conhecimento e tecnologia, centros formadores de mão de obra em todos os níveis, indústria moderna, área plantada, financiamento público etc. O que falta é ganhar escala, é crescer.

Por que o Brasil ainda não evoluiu como outros países ao redor do mundo?

Estamos atavicamente ligados à madeira. Somos um país que leva o nome de madeira, somos um país com plena vocação florestal. Mas, apesar disso, nossa colonização não incentivou a construção em madeira. Pelo contrário, fomentou preconceitos. Só começamos a mudar este panorama com a vinda dos imigrantes europeus e asiáticos. Hoje, com a globalização, está se tornando mais fácil reverter este quadro. À medida que mudarmos estes paradigmas veremos rapidamente um estreitamento do abismo tecnológico que nos separa dos países do primeiro mundo.

Quais informações precisam ser disseminadas sobre o assunto?

Que a madeira é, de fato, o material mais adequado aos desafios do mundo moderno e que o sucesso de sua utilização é obra de profissionais competentes, não de amadores. Aliás, assim como acontece com os demais materiais.

Entrevista concedida à repórter Maureen Bertol do Portal Madeira e Construção
Foto: divulgação

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