“A madeira vem sendo usada de forma pouco nobre”

10 de Março de 2016

De acordo com o arquiteto Marcelo Aflalo, madeira é a solução mais ecológica que alguém pode pensar para a construção

Um dos grandes incentivadores da construção sustentável utilizando a madeira como matéria-prima é o renomado arquiteto paulista Marcelo Aflalo, que idealiza projetos com madeira há mais de 20 anos. Por perceber que faltava informação sobre o assunto e para tentar mudar a cultura do brasileiro nesse sentido, ele resolveu criar a exposição itinerante “Arquitetura da madeira para o século XXI”, com o objetivo de consolidar a madeira como a matéria-prima do futuro, mostrando os aspectos gerais, como cultura, meio ambiente e tecnologia, e também trazendo projetos e maquetes de obras em madeira. O portal Madeira e Construção conversou com ele para saber mais sobre o trabalho desenvolvido, os grandes desafios na construção com madeira e a expectativa dele para o futuro com relação ao tema. Confira na entrevista a seguir.

Há quanto tempo você projeta com madeira? Quando começou seu interesse pela madeira?

Desde que me formei, em 1978, comecei a integrar a madeira de forma consistente e estrutural. Meu interesse começou ainda na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, desenhando e fabricando mobiliário.

Quais os grandes desafios hoje quando se fala em construção com madeira?

A madeira vem sendo usada de forma pouco nobre, mesmo sendo a solução mais ecológica que alguém pode pensar. Existem desafios técnicos, mas o maior deles é cultural. É a falta de conhecimento e informação pelos arquitetos e pelo público em geral. Os mitos sobre o uso da madeira – fogo, tratamento, custo, sustentabilidade etc. – estão muito mais disseminados do que a versão correta sobre esses temas. Nunca tivemos uma cultura de aceitação da madeira como matéria-prima contemporânea na nossa história. Ainda estamos tentando romper a camada superficial imposta pela cultura do cimento e continuamos tendo que explicar o básico. Seguimos num processo absolutamente primitivo na construção dessa cadeia construtiva e de um mercado consumidor que aceite esse tipo de produto.

Temos que criar cultura de aceitação da madeira. Não há a menor dúvida que se tivesse que eleger material contemporâneo de baixo impacto, a madeira seria de longe o primeiro da lista e o concreto seria o último. O que temos é o inverso. O concreto é extremamente poluente. Para reter CO2, precisamos usar a madeira de forma nobre.

Na Europa, 99% das casas são construídas com madeira. Lá houve uma mudança cultural muito rápida em função do protocolo de Kyoto, que visa reduzir as emissões de gases poluentes. Uma das recomendações é que se utilize mais a madeira para reter CO2. Por isso, os países europeus adotaram a ideia como lei e muitos obrigam a usar madeira num determinado percentual. Na América latina, o Chile tem produção 10 vezes maior que a nossa. Se chegarmos ao nível deles já está de bom tamanho.

Precisamos sempre lembrar que o ciclo da madeira é de 15 anos. Isso passa rápido. Teríamos uma produção enorme se nosso mercado fosse crescendo até lá. Assim a madeira começaria a baratear e seria, provavelmente, a matéria-prima mais barata e mais tecnológica para se trabalhar. Esse é o caminho para melhorar o planeta. Não temos outra possibilidade. Essa discussão está evoluindo numa velocidade rápida no mundo inteiro e o Brasil precisa acompanhar.
Por que o brasileiro ainda tem grande resistência quanto às construções com madeira?

A herança cultural ibérica sempre favoreceu construções feitas com alvenaria convencional e o concreto, tratando-os como materiais sólidos e duradouros. Nem mesmo a imigração do Norte da Europa foi capaz de mudar esse panorama. “Soprar, soprar até cair…” – Ainda perduram os mitos sobre o uso da madeira na construção.

O que falta para que a madeira se torne mais popular?

Bons projetos que modifiquem a percepção da madeira como material rústico e de baixa tecnologia. Um bom projeto em que a madeira contemporânea apresenta a madeira como um produto tecnológico, industrializado até certa medida, sustentável na origem, com bom aproveitamento da matéria-prima, usinado com precisão e montado por equipe qualificada. O custo inicial tenderá a cair à medida que mais obras sejam construídas e o processo fique mais competitivo.

Temos que pensar em ações conjuntas para mostrar o potencial disso, fazendo com que as pessoas percebam as vantagens da matéria-prima. A forma de rompermos essa barreira cultural é gerando informação. Também temos que ter bons livros técnicos, escolas e cursos. A Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) tem um curso optativo sobre madeira, mas geralmente não abre turma porque os estudantes não têm interesse. Eles acham que estamos falando de baixa tecnologia, quando é o contrario. A tecnologia é tão complexa e sofisticada que quando começamos a aprender, percebemos o quanto não sabemos.

Outro grande problema é que todos os elos da cadeia produtiva têm problema, por isso ainda não crescemos. A floresta tem problemas. Na parte de projetos não temos pessoas capacitadas para projetar. Na execução, não existem equipes treinadas. O financiamento é difícil. E finalmente não temos clientes que saibam apreciar e entender um projeto e as qualidades dele. É uma cadeia que tem muitos buracos e temos que resolver todos eles.

Um dos principais receios da população é com relação à resistência da madeira. Muitos dizem que ela é menos resistente ao fogo que outro material como o aço, por exemplo. Qual a explicação para isso?

Esse é um dos mitos recorrentes. A madeira queima, e queima devagar, sendo previsível a sua queima, e de baixa toxicidade. Durante a primeira hora de um incêndio em madeira, só a camada superficial estará em chamas e a brasa atuará como isolante térmico, mantendo a temperatura do miolo baixa. Essa previsibilidade faz com que haja tempo para evacuar um edifício em chamas. Com o concreto e o aço, quando a temperatura de um incêndio chega a um certo nível, há o colapso instantâneo de toda a estrutura. Ocorre ainda que boa parte dos materiais que revestem edifícios de concreto e aço produz fumaça mais tóxica que nas construções em madeira, sendo assim mais letais.

O que já é possível hoje nas construções com madeira?

Edificações de até 12 andares já são comuns na Europa e Austrália, e já existem projetos de edificações de 40 andares. A atual tecnologia de processamento e projeto permite maior liberdade formal e de linguagem, com leveza e economia. Um exemplo é o CLT (Cross Laminated Timber), que são grandes placas laminadas que eliminam a necessidade de pilares, vigas e lajes em outros materiais.

Como as escolas de arquitetura têm trabalhado projetos com madeira? Isso já é uma realidade dentro das universidades?

Pouquíssimas escolas têm um departamento ou mesmo matérias exclusivamente sobre madeira e estruturas em madeira. A madeira precisa ser integrada ao currículo muito cedo na grade e constantemente acessada como material de uso corrente. Algumas escolas estão começando o processo timidamente, mas, especialmente em São Paulo, ainda impera uma linguagem butalista que favorece o concreto.

Faltam engenheiros e arquitetos que conheçam um pouco para especificar a madeira num projeto. As escolas não ensinam, não existem livros técnicos, não se conhece muito sobre as madeiras disponíveis no Brasil. Mas é preciso investir nisso, se não faltará profissional capacitado no topo da cadeia.

Cada vez mais ensino isso na escola e cada vez mais tenho alunos formados que se interessam e produzem coisas legais com madeira. Também estão surgindo com frequência congressos e eventos onde a madeira tem papel principal. No mobiliário, atualmente a madeira é o material que mais aparece. Os jovens estão começando a descobrir. Ou seja, temos coisas boas acontecendo.

Quando pensamos em construções do futuro, o senhor acha que a madeira será um dos materiais construtivos?

A madeira é o único material renovável que pode ser produzido de forma sustentável sem exaurir o planeta e o solo. Ao mesmo tempo estou associando isso a novas tecnologias, onde se aproveita 100% da madeira e com isso fazemos peças que vão muito alem da própria madeira.

Considerando o enorme impacto ambiental na produção do cimento/concreto e dos metais, somente a madeira desponta como alternativa renovável e de baixo impacto ambiental. Para isso, precisaremos ter uma política de reflorestamento e manejo de nativas voltadas à serraria, para uso nobre na construção civil e no mobiliário. Hoje já existem limitações no uso da madeira devido ao limitado estoque florestal voltado para madeira serrada. As grandes distâncias, quase continentais do Brasil, indicam que a matéria-prima deveria ser usada próximo à área de extração, baixando custos, impacto ambiental e logística de transporte. O uso indiscriminado de madeira sem certificação torna esse futuro ainda incerto. A tecnologia atual permite pensar a madeira como material desconectado da sua origem e limitações, uma vez que industrializadas adquirem funções e tamanhos impensáveis na natureza.

A madeira poderia ser uma boa solução para o déficit habitacional no Brasil?

Certamente existem oportunidades na construção de habitações de interesse social, como aconteceu nos Estados Unidos, onde a madeira foi decisiva na solução do déficit habitacional nos anos 1950/60. As construções em madeira estão sendo homologadas e já são passíveis de financiamento através dos bancos de fomento, e isso abre as portas para a construção de casas com perfis variados que realmente atendam às diferentes necessidades das famílias residentes. Além disso, as construções modulares são de rápida montagem e permitem modificações de acordo com o perfil dos usuários.

Quais são as oportunidades? E os próximos passos?

Em toda a cadeia construtiva da madeira existem furos e oportunidades, partindo das florestas, passando pela transformação, pela indústria de acessórios e produtos de madeira associados, pela formação de arquitetos/engenheiros, formação de mão de obra especializada para as montagens, literatura de apoio, industrialização de peças engenheiradas e, finalmente, a construção. Nesse momento existe a necessidade de aglutinar todos os segmentos dessa indústria em um esforço para mudar os estigmas de mercado e promover ações sistemáticas para a construção de um mercado final.

Nosso objetivo é salvar o planeta, mas isso só acontece se tivermos política e demanda. O Brasil é dependente do concreto. Agora, estamos propondo um caminho oposto, porque sabemos que temos o maior patrimônio florestal e que temos condições de produzir madeira em larga escala para a construção civil. Nenhum país do mundo consegue entender como não temos uma cultura de madeira. Temos que mudar todo esse panorama. Se não temos demanda, precisamos criar demanda. Para isso acontecer é preciso convencer as pessoas e mudar a percepção comum de que a madeira é um material de baixa tecnologia, frágil e de baixa durabilidade, quando, na verdade, ela é justamente o oposto, com alta tecnologia, industrializável a baixo custo e totalmente renovável.

Entrevista concedida à jornalista Maureen Bertol / Portal Madeira e Construção

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