Uso responsável de madeira é realidade mundial

4 de julho de 2017

A madeira é considerada, nos círculos especializados, como o “material construtivo do futuro”. Tanto por suas qualidades ambientais – ela diminui a emissão de gases de efeito estufa das obras, além de potencialmente ajudar na gestão de florestas públicas e na manutenção da biodiversidade – quanto por razões práticas e econômicas (menor tempo de canteiro de obras, custos equivalentes a edifícios feitos com outros materiais).

No mundo inteiro, diversos governos já perceberam esses benefícios e vêm instituindo políticas públicas que estimulam o uso responsável da madeira na construção civil.

Para diversas nações, construir com madeira não é nenhuma novidade – principalmente em países que possuem a cultura do uso dessa matéria-prima e que dispõem de tecnologias adequadas para este fim. Mesmo países sem essa tradição mostram disposição para transformar a maneira como as cidades vêm sendo construídas.

Na província de Quebec, no Canadá, desde 2009 existe uma medida que tem o objetivo de aumentar o uso de produtos de madeira no setor não-residencial e na construção de condomínios, assim como intensificar o uso de produtos de madeira aparente. Além disso, o país já conta com uma série de construções em outras regiões. Um prédio para estudantes da Universidade de British Columbia, com 53 metros de altura e 18 andares, pretende se tornar um experimento para demonstrar econômica e estruturalmente a possibilidade das construções que têm a madeira como material construtivo principal.

Do outro lado do mundo, no Japão, o governo adotou várias medidas que estabelecem uma quantidade mínima do uso da madeira. Chamada de Lei “Wood First” (“madeira primeiro”, em inglês) essas medidas exigem que a madeira seja considerada material de construção primário para qualquer edifício financiado pelo governo de até três andares e para qualquer edifício da iniciativa privada usado de maneira pública.

E como fica a Europa neste caso? Nos países pertencentes à União Europeia, embora não haja obrigatoriedade no uso da madeira, duas exigências favorecem a aplicação desta matéria-prima.

Uma delas diz respeito à diminuição das emissões de gases do efeito estufa por parte dos materiais construtivos (a madeira evita esta emissão, diminuindo os prejuízos causados hoje pelas mudanças climáticas); e outra requer o uso de “materiais compatíveis ambientalmente”. A União Europeia também busca monitorar a “pegada de carbono” de todos os materiais usados num processo construtivo, levando em consideração todo o ciclo de vida de um edifício.

A Itália, por exemplo, atingiu um índice de 10% de casas construídas com madeira em 2009 – após 20 anos sem registros de construções em madeira naquele país. A Finlândia, por sua vez, encoraja a utilização de madeira em construção de pequenas casas; e o fato de ela possuir 76% de sua superfície coberta por florestas mostra um enorme potencial para essa indústria.

Tudo indica que esta tendência veio, de fato, para ficar. Indo para a Austrália, por exemplo, descobrimos que em 2015 alguns municípios, como Latrobe, Wellington Shire e Wattle Range instituíram políticas de estimulo ao uso da madeira.

É importante citar ainda que, além dessas iniciativas governamentais, diversos escritórios de arquitetura pelo mundo vêm “competindo” para saber onde será construído o mais alto prédio de madeira do mundo. Por esse motivo, diversos projetos desta natureza têm surgido.

Em Brisbane, também na Austrália, inaugura ano que vem um prédio que tem 45 de seus 52 metros feitos não de aço e concreto; mas de cola e madeira.

A Noruega, que possui uma tradição de construção em madeira de mais de 800 anos, possui na cidade de Bergen um prédio cujo apelido é “The Treet”, uma brincadeira com a palavra “tree” (“árvore”, em inglês): é um edifício de 49 metros, com 14 apartamento de luxo, construído com madeira.

Tal fato só foi possível graças às atualizações de legislação e códigos de construção, que precisaram acompanhar o avanço tecnológico de novos produtos – como os painéis de madeira laminada colada. Esta tecnologia, que consiste em juntar peças de madeira pré-fabricadas, traz mais versatilidade e permite fazer desenhos arquitetônicos mais arrojados e contemporâneos.

O Canadá foi o primeiro país na América do Norte a experimentar a madeira laminada colada. Em Quebec, a construção em madeira de até 12 andares foi recentemente aprovada.

Nos Estados Unidos, os códigos de construção permitem edificações em madeira de até seis andares em algumas regiões. Estruturas de até 12 andares estão sendo planejadas para Portland, Oregon e Nova York. Nesse campo, o céu parece ser o limite.

O caminho que temos a percorrer no Brasil é longo, mas algumas iniciativas começam a indicar mudanças positivas. No Piauí, uma lei estadual sancionada em 2016 passou a exigir que obras públicas locais adotem medidas sustentáveis na construção civil. Entre as medidas exigidas, algumas apontam para a possibilidade do uso da madeira nas construções.

Cabe à sociedade civil organizada – com suas associações, entidades de classe, representações formais e espaços devidos de discussão – exigir que o poder público dê cada vez mais atenção a esse tema. É preciso que os operadores das leis, chefes do Poder Executivo e demais autoridades ajudem os investidores privados a utilizar de forma responsável e sustentável as madeiras brasileiras. Como consumidores, é importante exigir legalidade, inovação, qualidade técnica e responsabilidade com os recursos naturais.

Com os incentivos certos, o Brasil tem tudo para usar cada vez mais e melhor suas madeiras; e modificar de forma substancial sua indústria construtiva. E assim, tomar parte numa das mais promissoras e importantes revoluções do século XXI.

Por Ricardo Russo, analista de Conservação do WWF-Brasil para o Portal Madeira e Construção

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