Brasil está a anos-luz do conceito de smart city, diz Trigueiro

2 de Março de 2018

Durante palestra em evento em Curitiba, que apresentou e debateu a concepção de cidades inteligentes, jornalista fez reflexão crítica sobre a necessidade de avançar em serviços ambientais básicos

Com a bagagem de quem acompanha soluções sustentáveis de desenvolvimento econômico e social ao redor do mundo há mais de dez anos, o jornalista André Trigueiro deu um tom mais crítico às discussões do Smart City Expo Curitiba 2018, ao abrir a programação na quinta-feira, 1º de março, segundo e último dia do evento. O recado foi direto: é incoerente pensar em cidades inteligentes, dentro do contexto tecnológico, diante da realidade brasileira de falta de planejamento urbano e acesso ainda limitado pela população ao saneamento ambiental, especialmente no que diz respeito à coleta e tratamento de esgoto e à gestão de resíduos sólidos urbanos.

“A realidade municipal no Brasil está a anos-luz do conceito de smart city. A maioria dos municípios é pobre e inadimplente. As principais receitas vêm de Brasília. São receitas federais, repasse do INSS ou Bolsa Família ou qualquer outro recurso para reduzir miséria e pobreza. Boa parte dos prefeitos é analfabeto funcional, não tem recursos humanos aptos a formatar projeto”, pontuou Trigueiro. “Os recursos estão disponíveis para certas ações, só que o estado de indigência municipal em alguns lugares do Brasil é tanto que não há uma pessoa na cidade que tenha a competência técnica de redigir um projeto e se habilitar a receber o recurso”, complementou.

Diante dessa realidade, o jornalista defendeu que as discussões dentro do conceito de smart city devem ser centradas, primeiramente, em planos diretores bem estruturados para que as ferramentas tecnológicas sejam efetivas ao “emprestar inteligência na área de gestão”. “Eu penso que ferramentas digitais, tecnológicas são importantes, mas a gente precisa saber quando, onde e porque usá-las. Do contrário, vira brinquedinho”, ponderou.

Ao fazer essas considerações, Trigueiro se baseou em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontam que apenas 2.786 municípios brasileiros – cerca de metade do total – dispõem de planos diretores. Ele entende que, sem planejamento, não há como fazer uma gestão inteligente e sustentável, no sentido de identificar os problemas e buscar recursos humanos e financeiros para solucioná-los.

Dentro dessa perspectiva, o jornalista citou exemplos de adoção do que ele chamou de “tributos inteligentes”, como o ICMS Ecológico, instituído até o momento em 17 Estados, e o IPTU Verde, que é realidade em capitais como Curitiba, Salvador, Porto Alegre, Goiânia, Cuiabá e Belo Horizonte (esse último ainda em regulamentação). Municípios que inseriram em suas agendas ações de proteção a mananciais, conservação de áreas verdes e destinação adequada dos resíduos ficam com uma fatia maior do bolo do ICMS. Isso representou, em 2017, um repasse adicional de R$ 92 milhões, o que tem impacto positivo no orçamento de cidades pequenas. Já o IPTU Verde oferece descontos ou isenção do tributo a contribuintes que, por exemplo, instalarem em suas casas coletores solares, sistemas de iluminação e ventilação naturais, de captação de água de chuva e telhado verde.

Gestão de resíduos e coleta de esgotos

No painel “Um futuro sustentável para nossas cidades” apresentado pelo jornalista André Trigueiro, que é especializado em gestão ambiental e professor de geopolítica ambiental, a gestão dos resíduos sólidos urbanos também ganhou destaque. Além de ser um desafio mundial, o “lixo” tem influência direta sobre o aquecimento global por conta da emissão de metano – resultante da decomposição da matéria orgânica – um dos principais causadores do efeito estufa. Para o jornalista, as mudanças climáticas são o maior problema ambiental deste século e afetam diretamente as cidades.

Trigueiro defendeu um novo olhar sobre a questão dos resíduos, a partir da adoção de sistemas inteligentes para reduzir o volume gerado, começando pelo ecodesign dos produtos e se estendendo a ações mais incisivas de educação ambiental e práticas estratégicas de reciclagem e reutilização de materiais. Ele lembrou que, no mundo, quase 1,5 bilhão de toneladas de resíduos são geradas por ano. “Boa parte do mundo não consome o suficiente para descartar, por dia, mais de um quilo de resíduo. Nós descartamos mais de 1,2 kg.”

Levando em conta que no Brasil existem, pelo menos, 3 mil lixões ou aterros sanitários irregulares, que impactam a qualidade de vida de 77 milhões de brasileiros, o jornalista sugeriu como alternativas viáveis, sob os aspectos técnico e financeiro, a cobrança sistemática de taxa de coleta de lixo para assegurar recursos à prestação desses serviços pelas prefeituras, e a criação de mais consórcios intermunicipais para gestão dos resíduos. Segundo o IBGE, até 2015, metade dos municípios cobravam pela coleta e pouco mais de um terço havia se consorciado para o manejo e destinação adequada do lixo.

Falando diretamente aos gestores municipais presentes no evento, Trigueiro chamou a atenção, ainda, para a logística reversa – sistema que se tornou obrigatório para determinados tipos de materiais pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, regulamentada no Brasil, em 2010. “Prefeitos, questionem fabricantes sobre a responsabilidade que cabe a eles dos resíduos que vocês estão vendo problema em dar destinação final adequada.”

Os dados alarmantes da falta de acesso à coleta e tratamento de esgoto no Brasil também embasaram a palestra de Trigueiro. Mais de 100 milhões de brasileiros não têm esgoto tratado e 4 milhões não dispõem, sequer, de banheiro em suas residências. “Não é possível falar de smart city sem encarar a dura realidade. Nenhum país do mundo, que se diga desenvolvido, chegou lá sem cuidar de seus resíduos e de seus excrementos de forma adequada”, reforçou.

Para mostrar que a falta de saneamento básico tem solução, o jornalista citou o exemplo de Petrópolis (RJ), onde foram implantados sistemas de biodigestão para tratamento do esgoto, e de Curitiba, onde a Sanepar fará aproveitamento energético do gás gerado em biodigestores. Falou, ainda, sobre as lagoas com plantas biofiltrantes (wetlands), que foram adotadas como alternativa para o tratamento dos efluentes domésticos da cidade de Araruama, também no Rio de Janeiro.

Ao finalizar sua participação no Smart City Expo Curitiba, Trigueiro mencionou outras práticas de gestão ambiental também importantes, em sua visão, para compor o conceito de cidades inteligentes, como os modelos construtivos que privilegiam a eficiência energética e racionalização no uso de recursos, e a mobilidade sustentável, que estimula o uso de transporte de massa e os meios alternativos, como as bicicletas. “O mundo só será melhor e mais justo se for sustentável”, enfatizou.

Por Andrea Lombardo para Portal Madeira e Construção
Foto assessoria de imprensa

 

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