Citius, Altius, Fortius

27 de outubro de 2016

O motto olímpico, “mais rápido, mais alto e mais forte”, inspira os acontecimentos no mundo da madeira, fora do Brasil. Uma intensa competição tem tomado conta dos mercados desenvolvidos, produzindo torres e volumes com áreas construídas, que antes pertenciam somente ao mundo do metal e do concreto. Saudável competição que alavanca pesquisas, derruba mitos, altera legislações e normas, gera demanda por matéria-prima de qualidade e ainda ecoa as recentes metas da COP 21 em Paris.

Esse movimento só é possível em mercados maduros que superaram – ou estão em processo de superação de – barreiras culturais que têm grande impacto na aceitação de produtos florestais nessa escala. São mercados que já possuem longa tradição em construções de madeira para o segmento residencial e para pequenas obras coletivas, públicas ou privadas, e que agora começam um salto para obras em grande escala, aproveitando a extraordinária evolução tecnológica e a consequente redução de custos que os processos industriais proporcionam.

A partir de 2008, com o uso em grande escala do CLT (Cross Laminated Timber), os primeiros exemplares de edificações feitos inteiramente em madeira começaram a surgir na Inglaterra, Austrália, Áustria, Noruega e, finalmente na América do Norte (Canadá e Estados Unidos). A “maior estrutura em madeira”, o “mais alto edifício”, entre outros adjetivos típicos da cultura norte-americana, demonstram que o movimento pelo uso maciço da madeira é uma realidade incorporada ao modelo de negócios da região.

Devemos acompanhá-los? Não podemos queimar etapas ainda, por mais entusiasmo que essas tecnologias evoquem, pelo simples fato de que não construímos um mercado que ultrapasse a fronteira das residências de alto luxo ou as construções temporárias para a população de baixo poder aquisitivo.

Precisamos ainda conquistar a classe média através de residências industrializadas, edificações de uso coletivo como escolas, postos de saúde, igrejas, edifícios administrativos e outros, em cujo desenho sejam incorporados atributos ligados à tecnologia, durabilidade, acessibilidade e até valor de revenda.

Ações concretas, como o recente sucesso da empresa curitibana Tecverde, têm enorme impacto positivo na melhoria da percepção pública dos benefícios da madeira e na homologação do material e da tecnologia para a disseminação do modelo. Ainda que discorde da linguagem extremamente associada a construções convencionais de alvenaria, é sem duvida uma iniciativa digna de nota.

As recentes obras da paulista ITA Construtora, em Ilhéus e Tocantins, além da escala grande, monumental no caso de Tocantins, também cumprem papel relevante, porque fogem dos nichos tradicionais onde encontramos a madeira e atraem um público empresarial normalmente arredio a esse tipo de inovação.

Mesmo que tenhamos acesso às novas tecnologias, (o CLT já está sendo produzido no Brasil, em pequena escala), não temos volume, mão de obra capacitada, matéria-prima de origem controlada, engenheiros e calculistas treinados, entre outras tantas deficiências que tornam esse movimento muito arriscado e capaz de condenar o material por conta de erros estratégicos.

Temos que conquistar corações e mentes que se sintam seguros de investir nesse material e em tudo o que ele significa para a sobrevivência ambiental do planeta. E para a formação de uma cadeia construtiva consistente e sintonizada com as oportunidades a médio e longo prazo.

Quem investe na madeira não pode pensar em curtíssimo prazo pela própria natureza do material.

Podemos e devemos inovar na linguagem e em modelos construtivos locais que incorporem sabedoria vernacular com alta tecnologia, investindo na diversidade da matéria-prima brasileira e descobrindo usos criativos do nosso potencial arquitetônico, que muito contribuiu para o desenvolvimento do concreto no passado.

Por Marcelo Aflalo,  arquiteto, sócio-fundador da Univers Arquitetura e Design

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