“CLT é uma tecnologia inovadora em madeira que aponta para um novo paradigma na construção civil”

8 de julho de 2019

O engenheiro português Luís Jorge esteve recentemente no Brasil para palestra sobre “Edifícios em CLT” em evento promovido pela Amata, em parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB). Confira nesta entrevista com o especialiasta, produzida pela equipe da Amata, sobre as mudanças dos paradigmas da construção tradicional, unindo desempenho, industrialização e sustentabilidade.

Luis Jorge, engenheiro civil

O que torna o CLT um sistema inovador quando comparado a outros sistemas construtivos tradicionais?

O CLT (Cross Laminated Timber) é uma tecnologia inovadora em madeira que aponta para um novo paradigma na construção civil, uma forma de pensar a construção desde a concepção, passando por todo o planejamento e a execução da obra até a etapa de uso e operação. Afirmo isso comparando-o com outros sistemas construtivos tradicionais, mas principalmente com a construção em madeira tradicional. Do ponto de vista da engenharia, estamos falando de uma forma totalmente diferente de construção. O sistema CLT é composto por placas que formam paredes e lajes, ao contrário das vigas e pilares que temos em sistemas tradicionais; no sistema CLT falamos de uma forma diferente de interpretar a estrutura. Na Europa, o CLT começou a ganhar popularidade em zonas sísmicas, onde o sistema com madeira se mostrou com baixa vulnerabilidade em relação aos movimentos do solo que, somada à sua rigidez, permitiu um desempenho superior a outros sistemas construtivos. Em relação ao conforto térmico e à eficiência energética, a madeira é um material com condutibilidade térmica inferior aos materiais tradicionais, o que lhe confere um desempenho superior em relação à construção tradicional.

O desempenho térmico do CLT é superior aos sistemas tradicionais somente em climas frios como o da Europa ou também se aplica a climas tropicais como o do Brasil?

Esses resultados se aplicam a ambas as situações, tanto em regiões muito frias quanto em regiões muito quentes.

Existe a possibilidade de associação do CLT com outros materiais, como manta térmica ou revestimentos, para a composição de uma parede interna ou externa de um edifício?

Sem dúvida há essa possibilidade, existem várias especificidades em relação a isso, mas, quando comparado com o sistema tradicional em madeira, em que encontramos o material apresentado à vista como forma de revestimento, o CLT vai além, por não apresentar isso na sua essência. O CLT deve ser entendido pelo seu desempenho, isto é, estruturas, acústica, conforto térmico, execução de obra, é uma solução construtiva que tem desempenho melhor do que o das soluções tradicionais; não é estético, é desempenho.

Estamos falando, então, de um sistema construtivo que possui um forte apelo para a industrialização da construção. Vemos em alguns mercados como os EUA, a Europa e o Japão que a construção civil já possui níveis mais avançados de industrialização quando em comparação com a realidade brasileira. Como você vê essa diferença em relação à adoção do sistema CLT no Brasil?

Temos duas faces do processo. A fabricação do produto, neste caso a transformação do produto madeira numa peça de CLT, que sem dúvida é um processo industrial, pesado e rigoroso e que demanda um controle de qualidade avançado; esse primeiro aspecto é a meu ver a parte fácil de resolver, pois se trata de uma questão de investimento e de capacitação para que o produto esteja disponível no mercado. O segundo aspecto, do ponto de vista da execução do projeto e da obra, é algo que pode demorar um pouco mais, pois exige uma nova maneira de projetar edifícios e, principalmente, um novo olhar para a madeira. Contudo, é necessário fazer um caminho para que engenheiros e arquitetos tenham uma nova visão do material, mudar a ideia de especificar a madeira porque é um material agradável e passar a especificá-la porque é um material que tem desempenho melhor.

Quando comparamos o CLT com outros sistemas construtivos industrializados, como o steel frame, qual o desempenho que ele tem em relação à otimização da produção e construção?
Primeiramente, o steel frame tem maior incorporação de mão de obra na etapa de construção, é um sistema de tem algumas limitações do ponto de vista estrutural, o que dificulta edifícios altos. O steel frame, assim como outros sistemas de construção leve, possui limitações em relação à altura de edifícios, assim como em relação à acústica e ao conforto térmico, questão comum em sistemas construtivos leves, apresentando, portanto, um desempenho diferente do CLT.

Nesse sentido, o CLT permite construções mais altas e mais robustas?
Sim.

Quais exemplos de construções altas em CLT você poderia nos apresentar?

Todos os dias aparecem novos números e novos exemplos de edifícios em CLT, porém, há dois edifícios marcantes: o primeiro deles é o Dalston Works, em Londres, que é um edifício de dez pavimentos, acredito que o primeiro edifício alto a ser construído em CLT; é um excelente exemplo, pois a madeira não está visível em nenhum local, as pessoas chegam ao edifício e não veem madeira, não conseguem distinguir o edifício de um construído em sistemas tradicionais. Talvez pelo fato de não verem vigas e pilares, as pessoas possam suspeitar que se trata de um sistema construtivo diferente. O segundo exemplo, mais recente, é um edifício na Noruega, considerado o edifício em madeira mais alto da Europa, cuja construção foi um misto entre CLT e MLC (madeira laminada colada). Esses são dois grandes exemplos, apesar de existirem muitos outros.

No Brasil existe uma barreira cultural para novos sistemas construtivos em relação ao barulho de oco quando as pessoas batem na parede. Como o CLT se comporta nesse sentido?

Essa é a grande diferença de um sistema leve, como o steel frame, para um sistema maciço, como o CLT. Em sistemas maciços essa questão não aparece, portanto, o CLT está mais alinhado a essa questão cultural do Brasil do que outros sistemas.

Em relação à etapa de projeto, qual a diferença entre os sistemas construtivos tradicionais e o sistema CLT?

Todos os sistemas baseados em pré-fabricação exigem um maior esforço de projeto, é uma questão de executar parte do processo fora do canteiro de obra; por outro lado, a madeira, por conta das suas características biológicas, exige um esforço maior de detalhamento de projeto para tirar proveito de todas as suas propriedades mecânicas.

Em relação à madeira em si é necessário algum tipo de tratamento químico para evitar a propagação de fungos e insetos ou mesmo aumentar sua durabilidade?
Essa é uma discussão que está aberta e, claro, há necessidade de desenvolvimento de investigações no contexto brasileiro, que é diferente do contexto europeu, mas a questão central é avaliar o risco e resolvê-lo com soluções construtivas. Se a madeira porventura tem necessidade de um eventual tratamento químico, ela será avaliada [MF1] como uma solução de projeto, porém, o tratamento químico não deve ser tratado como a primeira solução.

Em relação ao canteiro de obra, quais os diferenciais do sistema CLT?
O primeiro ponto é a equipe de obra; em geral são equipes reduzidas, em torno de três a cinco pessoas dependendo do porte da obra; são obra secas: como não há moldagem in loco, o consumo de água é menor; são obra mais rápidas, com menor ruído e menor incômodo à vizinhança, menor quantidade de resíduos e menos desperdício, questões alinhadas com a nova agenda ambiental da construção civil.

Fonte: Amata Brasil

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