Compartilhar conhecimento é caminho para evolução na construção em altura com madeira

6 de outubro de 2019

Woodrise 2019, realizado em Quebec, Canada, mostrou a importância da união dos profissionais envolvidos no tema para o desenvolvimento de tecnologia e mercado

“Um potencial de expansão do uso da madeira para construção de edifícios de até 25 andares muito grande e muitos desafios para os próximos anos para que possamos concretizar esse potencial, reduzindo ou até neutralizando a emissão de CO2 na construção”. Essa é uma das mensagens que o engenheiro civil, Guilherme Stamato, relata dos cinco dias do congresso Woodrise 2019, realizado em Quebec, Canadá. Na avaliação do especialista em estruturas de madeira, será preciso evoluir tecnologicamente para suprir a demanda com a segurança que essas estruturas exigem, com a eficiência e o desempenho que são diferenciais dos sistemas construtivos em madeira e, ao mesmo tempo, com competitividade para ter acesso ao mercado.

“Existe uma grande comunidade unida para o desenvolvimento das tecnologias, de forma comercial, científica ou acadêmica, que tem indicado que a união e a troca de conhecimento é o único caminho possível para atingir esses objetivos”, afirmou.

Exemplos bem-sucedidos de empreendimentos estão em diferentes partes do mundo. No terceiro dia do Woodrise foram apresentados diversos projetos. Os arquitetos Catherine St-Marseille e Nicolas Demers, responsáveis pelo projeto do edifício Arbora, em Montreal, um dos primeiros prédios residenciais em CLT do país, falaram do esforço criativo necessário de todos os envolvidos no projeto, já que a maioria não tinha conhecimento prévio de construções em CLT. Segundo os profissionais, o projeto ainda permitiu o desenvolvimento de métodos de trabalho e construção que o tornaram referência para esse tipo de construção em Quebec.

O engenheiro Tony Kekki, da Finlândia, apresentou particularidades de projetos que desenvolveu como o Puukuokka. A primeira fase foi concluída em 2015, a fase 2 em 2016 e a fase 3 iniciou em 2017. De acordo com Kekki, a evolução técnica entre a primeira e a última fase foi enorme; abriu caminho para projetos de madeira de alta qualidade e competitivos economicamente usando madeira maciça, principalmente CLT. O engenheiro falou ainda sobre um prédio de 13 andares, em Espoo, cuja obra deve começar ainda este ano.

Já o sueco Daniel Wided apresentou aos participantes do congresso o projeto de um prédio de 20 andares a ser construído na Suécia. Ele contou a história de como a empresa enfrentou o desafio de adicionar quadros de CLT a edifícios históricos em algumas das áreas mais movimentadas da Suécia – e como planeja avançar.

Industrialização e tecnologia

Para o engenheiro civil Guilherme Stamato, outro tema importante que fez parte das discussões durante o evento é o uso intenso de novas tecnologias de projeto, em especial o BIM (Building Information Model). Nesse sistema, todos os elementos que compõem a construção são integrados e compatibilizados no mesmo projeto.

“Além disso, as novas tecnologias de produção e processamento de madeira e de seus derivados permitem um grande aumento da industrialização, ou seja, a realização de muito mais atividades fora do canteiro de obras, em ambiente industrial, mais controlado e menos sujeito às intempéries e aos riscos aos trabalhadores”, explicou.

O chamado off site construction tem ganhado muito espaço com as construções em madeira, como foi apresentado no congresso pelo finlandês Toni Kekki e reforçado pelo professor Jan-Willem van de Kuilen, que apresentou o caso do Hotel Jakarta, em Amsterdam, na Holanda. O edifício foi construído com módulos completamente pré-montados em fábrica, incluindo os armários embutidos, o que permitiu a montagem dos 176 apartamentos em 12 dias no canteiro.

Hotel Jakarta, em Amsterdam, Holanda: 176 apartamentos em 12 dias no canteiro

Madeira e bem-estar

Um dos temas debatidos no Woodrise 2019 foi a ligação entre homem e a natureza. Algo que já tinha sido apresentado na abertura do evento quando da cerimônia de purificação sobre a necessidade das pessoas se reconectarem à natureza.

O arquiteto Japonês Masahiro Harada chamou a atenção para o vínculo saudável do homem com a madeira. “A madeira é produzida pela natureza e é o único material de construção natural. Construir em madeira é trazer a natureza de volta ao homem urbano”, afirmou.

A importância dessa relação entre natureza, arquitetura, bem-estar e saúde aparece no estudo apresentado pela também arquiteta Marie-France Stendahl. Segundo a especialista, foi constatado o aumento da hiperatividade humana nas grandes cidades em relação às pequenas e resultados positivos em projetos arquitetônicos voltados para o bem-estar em hospitais e casas de recuperação que tem a madeira como elemento principal.

Profissionais falaram da importância da relação entre natureza, arquitetura, bem-estar e saúde.

Mercado e visitas técnicas

O evento contou ainda com sessões simultâneas relacionadas a mercado, cadeia produtiva da madeira, evoluções nos estudos relativos ao desempenho das estruturas de madeira em situação de incêndio, vibrações, acústica e terremotos, além do estudo de soluções para garantir a durabilidade dessas estruturas. “A qualidade dessas apresentações e seus temas comprovam que existem muitos avanços em andamento para garantir o avanço consistente desse sistema construtivo”, disse Stamato.

O engenheiro Guilherme Stamato em visita técnica ao edifício Origine. O prédio tem 13 andares estruturados exclusivamente com Madeira Laminada Colada e CLT

Os dois últimos dias do evento foram reservados para as visitas técnicas às grandes estruturas de madeira construídas recentemente no Canadá. Um dos destaques é o prédio Origine, com 13 andares estruturados exclusivamente com Madeira Laminada Colada e CLT. “O edifício residencial, com moradores há mais de um ano, representa um grande estudo de caso para os canadenses, tanto do ponto de vista de desenvolvimento de tecnologias e monitoramento do desempenho, quanto na avaliação da aceitação do mercado, o que tem sido bastante positivo e resultado em muitos novos empreendimentos”, afirmou o engenheiro civil Guilherme Stamato, que visitou o local.

A próxima edição do Woodrise será em 2021 em Kyoto, no Japão.

Por Juliane Ferreira com informações de Guilherme Stamato
Fotos Guilherme Stamato

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