Componentes de madeira podem se tornar oportunidade de negócio

29 de novembro de 2018

Na avaliação de Marcelo Aflalo, do Núcleo de Referência em Tecnologia da Madeira, indústria já tem todos os elementos para atender parte da população brasileira com este tipo de produto

Os sistemas construtivos de madeira já vêm sendo apontados por vários especialistas como uma das possibilidades para a intervenção no déficit habitacional brasileiro. Por ser limpa, rápida, acessível e sustentável, este tipo de construção pode se adequar a diferentes cenários, como no caso de programas habitacionais, a exemplo do Minha Casa Minha Vida. Já há iniciativas neste sentido, como a da construtora Tecverde, que realiza empreendimentos junto com incorporadoras dentro do programa do governo federal.

No entanto, é necessário também pensar a habitação como interesse social e atender parte da população que não é inserida em programas como este. E a cadeia da madeira também pode aproveitar este nicho de mercado. Para isto, unir custos baixos, qualidade, identidade e informação pode se tornar um caminho a ser percorrido. E esta seria uma oportunidade de negócios.

Marcelo Aflalo, coordenador do Núcleo de Referência em Tecnologia da Madeira

Na opinião do coordenador do Núcleo de Referência em Tecnologia da Madeira, Marcelo Aflalo, a produção de componentes de madeira pode atender a demanda desta parte da população que quer construir. “Enquanto a indústria quer entregar kits prontos e casas prontas, o ideal seria a entrega de componentes”, avalia.

De acordo com ele, as casas pré-fabricadas já existem há muito tempo e não foi um modelo que deslanchou. Entre os motivos está o fato de ele nem sempre fazer sentido em todos os lugares – até mesmo esteticamente – ou mesmo ser possível colocar a casa já pronta de uma forma que satisfaça as necessidades dos moradores. Um exemplo é quanto à exposição solar. Com a casa pré-fabricada feita até o momento, na avaliação de Aflalo, pode ser um desafio posicionar as janelas para aproveitar de melhor forma a luz natural.

A professora associada do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Akemi Ino, coordenadora do Habis (Grupo de Pesquisa em Habitação e Sustentabilidade do instituto), concorda com o coordenador do Núcleo de Referência em Tecnologia da Madeira. “A oferta de componentes de madeira engenheirada pode atingir uma importante parcela da população. Acessar estes componentes e fazer suas construções é uma possibilidade e algo a ser pensado”, opina.

Aflalo acredita que um caminho para a cadeia com este material no Brasil seria o sistema SIP (Structural Insulated Panel), um sistema modular. “Por aqui, são fabricados com blocos de cimento, mas poderiam ser produtos de madeira. Dependendo do projeto, pode-se montar uma estrutura em dois dias, um dia, em horas”, afirma.

Painel SIP (Foto: Reprodução)

O sistema consiste na produção de painéis já prontos, que serviriam de paredes de uma casa, por exemplo, já com revestimento e toda a preparação necessária para a montagem – inclusive hidráulica, para os casos de banheiro e cozinha. Um dos diferenciais estaria na facilidade de instalação, ou seja, na simplicidade. Seria possível uma montagem até mesmo sem a contratação de mão de obra terceirizada.

“Uma excelente opção, desde que haja um bom desempenho, um bom caderno técnico (incluindo informações sobre como fazer a fundação, por exemplo), as orientações sobre como proteger a parede, como não deixar entrar água. Mas com variedade estéticas e adequações”, comenta Aflalo.

Produção de painéis SIP da empresa Módulo Sequência, de São Paulo (Foto: Divulgação)

De acordo com ele, a indústria já tem todos os elementos para trabalhar em sistemas como este, que favoreceriam habitações econômicas e eficientes, com construções rápidas. “Já existe tudo. É uma questão de desenho, uma decisão simples”, salienta. “Este nicho interessa e merece ser observado”, declara o coordenador do Núcleo de Referência em Tecnologia da Madeira.

Exemplo

A empresa Módulo Sequência, de São Paulo, já produz kits com painéis SIP para a montagens de moradias. São conjuntos compostos por painéis de madeira revestidos com as instalações e acabamentos necessários para a casa. Os painéis podem ser adquiridos e erguidos pelo próprio comprador a partir de um manual. Antes disto, ele deve executar a fundação radier.

Alexandre Mariutti, sócio da Módulo Sequência, conta que a empresa decidiu investir nos painéis SIP ao ver o crescimento e os bons resultados deste material e seu sistema construtivo no Chile e em outros países. “Vi que era um produto mais fácil, mais rápido, que emprega menos mão de obra. Por isto, decidimos investir. Hoje temos uma planta industrial preparada, na qual fabricamos o painel SIP”, afirma. A fábrica está localizada em Cajamar, a 40 quilômetros de São Paulo.

Peças para kits casa feitas na planta da Módulo Sequência (Foto: Divulgação)

“Nossa produção ainda é maior do que as vendas porque existe ainda muito preconceito pelo desconhecimento. Acredito muito no sistema, tendo mais vantagens nos quesitos térmico e acústico. Além de ser mais sustentável”, comenta Mariutti. A empresa cita também como benefícios dos painéis SIP o baixo peso (e isto reduz o custo de fundação e da mão de obra), economia de energia, alta durabilidade, fácil manuseio, velocidade de montagem, custo acessível e manutenção rápida e prática.

Mariutti salienta que no kit são ofertados todos os insumos necessários para a montagem de uma casa. Atualmente, a Módulo Sequência faz este produto conforme a demanda, de acordo com o cliente. O sócio da empresa explica que não há planos para fazer uma oferta em larga escala porque perde-se a personificação.

Habitação de Interesse Social

A Módulo Sequência realizou neste ano um projeto piloto em um assentamento de famílias no Instituto Anchieta em Grajaú, em São Paulo, com um kit de uma casa com painéis SIP para atender famílias desta região. Para esta iniciativa, foi projetada uma moradia de 23 metros quadrados, com dois quartos, sala, banheiro e cozinha.

Cada kit gerou uma casa de 23 metros quadrados (Foto: Divulgação / Módulo Sequência)

“Um grupo de oito moradores passaram pelo treinamento na empresa, de meio dia, e montaram uma casa. Depois, montaram eles mesmos no assentamento. “Os kits foram feitos com um SIP mais simples, até mesmo para baratear o custo. A casa de 23 metros quadrados era completa, com porta, janela, chuveiro, piso vinílico, louças. O custo foi de R$ 20 mil, sem a mão de obra”, indica Mariutti.

Projeto contou com a participação ativa dos moradores (Foto: Divulgação / Módulo Sequência)

De acordo com ele, os kits de casa e a proposta da habitação social são alguns caminhos a serem seguidos pela empresa, mas não os únicos. A partir do painel SIP, também foram desenvolvidos módulos para diversas finalidades, como alojamentos, vestiários, guaritas, escritórios e casas.

Exemplo de módulo construído pela empresa, ainda sem o acabamento (Foto: Divulgação)

Eles podem ser acoplados, dependendo do projeto, funcionando como uma espécie de contêiner. Atualmente, os módulos também são feitos sob demanda do cliente.

Módulo finalizado e instalado (Foto: Divulgação / Módulo Sequência)

Além disto, a Módulo Sequência usa este tipo de produto de madeira em diferentes tipos de construção. Uma das aplicações é como laje de forro, oferecendo excelente conforto térmico/acústico.

Por Joyce Carvalho para o Portal Madeira e Construção

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