Construção com madeira: um mercado promissor

19 de Abril de 2016

Barreiras culturais ainda são maior desafio do setor. Um dos grandes mitos ainda é a resistência ao fogo

O Brasil tem um enorme potencial florestal que salta aos olhos do mundo. Hoje, o país é, de acordo com informações divulgadas pelo Serviço Florestal Brasileiro, o único que possui extensa área de florestas tropicais e tem a segunda maior cobertura florestal do mundo, perdendo apenas para a Rússia. A estimativa do Ministério do Meio Ambiente é que 69% dessa cobertura tenham potencial produtivo. Porém, mesmo com uma vocação florestal tão expressiva, o país ainda enfrenta barreiras culturais para crescer quando o assunto é a utilização da madeira na construção civil.

Na opinião de Humberto Tufolo Netto, diretor de relacionamento da Montana Química S/A, empresa que atua com produtos para preservação de madeira, construção civil e indústria moveleira, o mercado para a madeira é altamente promissor, porque este é um material versátil que reduz o tempo de construção, melhora a qualidade final da obra e garante uma construção realmente sustentável. Ele cita que, hoje, já é possível construir tudo com madeira, inclusive prédios. O grande obstáculo no Brasil é a falta de conhecimento.

“Os profissionais de construção precisam entender os valores da madeira e saber que é fácil trabalhar com esse material. Muitos ficam preocupados porque desconhecem o material, seu valor e o conteúdo técnico. Trata-se de uma estrutura que está cercada de normas técnicas, de todas as garantias em termos de eficiência, segurança e sustentabilidade. Para que essa aplicação seja reconhecida e mais popularizada, precisa uma difusão do conhecimento”, declara Netto.

Elaine Guedes, diretora comercial da empresa, reforça a opinião dele e diz que o preconceito do brasileiro impede a popularização da madeira como material construtivo. Ela cita que é possível fazer muito mais do que já é feito, mas, para isso, é fundamental que a madeira seja levada para dentro das faculdades de arquitetura e engenharias. “Os estudantes precisam perder o medo de especificar a madeira. Como os profissionais não conhecem o material e suas reais propriedades, na hora de dimensionar as estruturas, por exemplo, elas acabam superestimadas, o que muitas vezes inviabiliza as obras somente por desconhecimento do que a madeira poderia trazer na sua melhor aplicação”, afirma.

Para Netto, essa discussão deve ser amplamente divulgada dentro das universidades para que os estudantes possam trabalhar com o material durante a vida acadêmica. “Um país com vocação florestal tem todo o potencial para atender essa demanda habitacional que existe no Brasil. Falta aumentar essa discussão. O mercado de madeira está em expansão. Mesmo passando por crises, a madeira vem quebrando paradigmas e tem crescido consistentemente, prova disso é a importante evolução de empresas como a Tecverde, a Tetti Construções, a Ita Contratura, a Rewood, entre outras. Nossa expectativa é continuar crescendo”, adianta.

Madeira x fogo

Um dos grandes mitos quando se fala em construção com madeira, de acordo com o diretor de relacionamento da Montana Química S/A, é de que a madeira pega fogo mais rápido que outros materiais. Netto afirma que a ideia não passa de um equívoco e preconceito da população, porque as estruturas de madeira são muito mais seguras que as metálicas ou de alvenaria.

“A madeira tem, normalmente, uma resistência maior ao fogo. Uma estrutura, quando submetida à chama, tem carbonização periférica que impede que ela entre em colapso. Numa estrutura de aço, ao alcançar 400 graus, ela entra em colapso e desaba”, explica.

Edna Moura Pinto, arquiteta e doutora em Ciência e Engenharia de Materiais, realizou, em 2007, uma pesquisa pela Universidade de São Paulo – unidade São Carlos, que comprovou que a madeira apresenta boa resistência. “Num incêndio, as temperaturas atingem mais do que 1000°C. No entanto, o aço, a 500°C, já perdeu 80% de sua resistência, enquanto que o concreto começa a perder resistência a partir dos 80°C. A madeira, submetida a um severo incêndio, teve sua seção reduzida, mas não a ponto de eliminar sua capacidade de suportar seu próprio peso e o peso extra das barras de aço”. (PINTO, Edna Moura. 2007)

Seção de uma viga de madeira laminada colada, exposta ao fogo durante 30 minutos

Seção de uma viga de madeira laminada colada, exposta ao fogo durante 30 minutos

E para atender uma demanda do mercado da construção civil, a Montana começou a desenvolver, há cinco anos, um produto para aumentar a resistência e a segurança da madeira com relação ao fogo. Em março desde ano, a empresa lançou o Osmoguard FR100, que tem a função de retardar o efeito de chama e a produção de fumaça.

Segundo Humberto Netto, os profissionais ligados à construção solicitaram um produto para agregar mais valor a esse material construtivo para ajudar a viabilizar o uso da madeira. “No Brasil, esse produto é inédito. O que existe no mercado são acabamentos com ação retardante de chamas. No caso do Osmoguard, estamos impregnando o substrato, realmente acrescentando valor à estrutura”, comenta.

O diretor de relacionamento da companhia lembra que o desenvolvimento deste tipo de tecnologia não é simples, porque deve contemplar as diferentes condições de uso da madeira e estabelecer critérios. Para que o produto fosse criado, a Montana priorizou algo que fosse economicamente viável, de fácil aplicação, que não alterasse a cor da madeira ou que permitisse tonalizá-la no mesmo processo, que também fosse sustentável e que permitisse diferentes tipos de acabamentos.

Para verificar a qualidade do produto antes de lançar ao mercado, a empresa realizou testes nos principais laboratórios de fogo no Brasil, entre eles o Laboratório de Madeiras e de Estruturas de Madeira (LaMEM), da Universidade de São Paulo – unidade São Carlos, e o Instituto de Pesquisa Tecnológica (IPT) de São Paulo. Todos os ensaios atendem às normas brasileiras e também internacionais. “Na classificação do produto, atingimos a melhor classe, que é a classe 2A. Dentro dos produtos inflamáveis, esta é a classe de menor risco para o consumidor em termos de resistência ao fogo. Estamos classificados na categoria mais rígida e exigente deste produto”, declara Elaine Guedes, diretora comercial da Montana.

Por fim, Netto afirma que a madeira é um material que traz muita tecnologia e, por isso, deve ter mais espaço no Brasil, porque, além de tudo, é um material sustentável. Segundo ele, o produto que aumenta a resistência da madeira ao fogo vai ajudar a popularizar a madeira. “Nosso objetivo é vencer certas barreiras e preconceitos técnicos para que a construção civil amadureça ainda mais no uso do material verdadeiramente sustentável”, completa.

 

Por Maureen Bertol para o Portal Madeira e Construção

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