Oportunidade para a construção industrializada

18 de setembro de 2016

Setor madeireiro vê possibilidade de crescimento com a consolidação do sistema wood frame

“A crise é a nossa maior aliada, pois faz com que as construtoras busquem eficiência operacional, e isso está atrelado à tecnologia”. Essa tem sido a motivação de Caio Bonatto, um dos fundadores e sócios da Tecverde, empresa curitibana especializada em construções eficientes. “Esta é uma fase em que o país vive uma crise de mercado e de renda, mas para nós, junto às construtoras, tem sido muito bom. Conseguimos crescer em 2015 e em 2016 já começamos crescendo bastante”, declara.

No início deste ano, a empresa fundada em 2009 recebeu um sócio investidor, que vai dar o suporte necessário para a Tecverde expandir seus negócios em 2016 e 2017. O fundo norte-americano Global Environment Fund (GEF) fez um aporte de R$ 20 milhões na construtora. “A Tecverde trouxe uma nova parceira, justamente, para se fortalecer para esta fase que vamos viver de crescimento. Estamos nos preparando para atender os maiores players do país. Nosso objetivo é de, até 2017, atender no mínimo de cinco a 10 mil casas por ano, em todos os padrões”, revela Bonatto.

Com o objetivo de mudar a maneira de construir no Brasil, intensificando a sustentabilidade e a industrialização neste setor, os empreendedores Caio Bonatto, Beto Justus, Lucas Maceno, Pedro Virmond Moreira e Maria Paula Roco Nascimento, entre outras ações, adaptaram o wood frame (que tem a madeira como elemento principal em sua estrutura, perfis, piso e cobertura por meio do uso de painéis e madeira serrada), às necessidades nacionais.

A atuação da Tecverde, inicialmente, ficou voltada para casas de alto padrão. No fim de 2013, recebeu do Ministério das Cidades a liberação do Documento Técnico de Avaliação (DATec), autorizando a realização de obras em wood frame. A medida permitiu também a realização de financiamentos para construções com essa tecnologia.

Este cenário alavancou o uso do sistema construtivo. A Tecverde se tornou parceira de construtoras para a execução de empreendimentos feitos dentro do programa federal Minha Casa, Minha Vida.

 

Fábrica da Tecverde em Araucária (PR) / foto: divulgação

Fábrica da Tecverde em Araucária (PR) / foto: divulgação

Um grande passo para a empresa aconteceu com o empreendimento Supreme Village, na cidade de Suzano, no interior de São Paulo, feito em parceria com a MRV em 2015. “Passamos de um negócio de nicho para atender o mercado da construção civil em escala”, aponta Bonatto. Paralelamente, para atender a esta demanda, a Tecverde implantou a fábrica mais automatizada na América Latina para produção de casas.

O feito mais recente da empresa – considerado um marco por outros atores dos setores da construção e da indústria de madeira – foi a construção do primeiro prédio utilizando esse sistema. A montagem do prédio de três pavimentos, no município de Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), durou 40 horas, com jornadas de oito horas de trabalho diárias. O empreendimento feito em parceria com a CRM Construtora tem duas torres de edifícios e também poderá ser financiado pelo programa habitacional do governo federal.

 

Primeiro prédio em wood frame do Brasil está no Paraná / foto: Portal Madeira e Constução

Primeiro prédio em wood frame do Brasil está no Paraná / foto: Portal Madeira e Construção

Mais madeira

Para o superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), Paulo Pupo, as indústrias da construção e de madeira estão diante de novas oportunidades. “Precisamos entender e capitalizar o momento, para consolidar esse método construtivo eficiente e inovador. Mas, para isso, será necessário que os fabricantes de madeira se preparem para atender as exigências técnicas do mercado. Há uma chance real de aumentarmos o consumo per capita de madeira no mercado interno”, afirma.

Na avaliação da Abimci, o lançamento do prédio vem em um momento estratégico. “A ação reforça a importância do desenvolvimento da norma técnica para o sistema wood frame”, acredita Pupo.

Para os envolvidos nessa discussão, o desenvolvimento da norma promete ser um dos marcos para consolidar o sistema em terras brasileiras. Em junho, foi oficialmente instalada a Comissão de Estudos da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para desenvolver a norma técnica do sistema construtivo wood frame. Um Grupo de Trabalho formado por mais de 25 pessoas já iniciou a construção do texto.

O consenso de que era preciso criar uma norma específica para o método surgiu a partir das discussões na Comissão Casa Inteligente. Instituída em 2009 pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) com a participação de mais de 50 empresas e instituições, o grupo tem realizado um trabalho intenso de divulgação da tecnologia wood frame, além da articulação para a aprovação deste sistema construtivo em nível nacional.

A visão de que há chance de bons negócios para a indústria da madeira, a partir da consolidação desse sistema construtivo, também é defendida pelo engenheiro e especialista em estruturas de madeira, Guilherme Stamato. “Se a construção de wood frame no Brasil atendesse 10% do mercado (previsto em 1 milhão de unidades/ano), teríamos algo próximo de 5 milhões de m² para construir, representando 0,5 milhão de m³ de madeira de pinus serrado, além da demanda já existente”, avalia.

De acordo com o engenheiro, a tendência de crescimento na construção com madeira é mundial. “A Suécia, por exemplo, tem entre 80% e 90% das construções em wood frame, das quais 30% em edificações multifamiliares. Na Holanda, o market share desse sistema em 1996 era de 2%, em 2007, já era de 15,7%”, revela.

A LP Brasil, indústria de painel OSB com planta em Ponta Grossa, acredita que as oportunidades para o setor de madeira com foco na construção são boas. “Trata-se de uma necessidade de mercado. Hoje as construtoras querem industrializar o processo construtivo para atender às normas de desempenho”, afirma o supervisor Comercial da empresa, Sérgio Rodrigues.

Líder mundial da fabricação do OSB, a indústria com origem nos Estados Unidos, tem 25 plantas, das quais três no Chile, onde, segundo o supervisor, a construção com madeira é um mercado em franca expansão. A fábrica paranaense possui capacidade para produzir 350 mil m³ por ano, o que daria para construir 45 milhões de m² de paredes.

Fábrica paranaense do painel OSB possui capacidade para produzir 350 mil m³ por ano o que daria para construir 45 milhões de m² de paredes / foto: LP Brasil

Fábrica paranaense do painel OSB tem capacidade para produzir 350 mil m³ por ano, o que daria para construir 45 milhões de m² de paredes / foto: LP Brasil

O vice-presidente de área técnica do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Paraná (Sinduscon-PR) e representante da Comissão Casa Inteligente da Fiep, Euclesio Manoel Finatti, lembra que, tradicionalmente, o segmento da construção não tem uma indústria, mas, sim, uma grande montadora. O gasto de energia, segundo ele, é “enorme, porque a construtora precisa montar uma fábrica em cada obra”.

Com o sistema wood frame acontece exatamente o contrário: desenvolve-se a estrutura de forma rápida dentro do ambiente fabril. Nesse cenário, não importa a condição do clima; tanto na chuva como no sol, a produção não para. Também é possível desenvolver um controle eficiente e levar para a obra apenas um guindaste e alguns profissionais para fazer a montagem das partes. “Estamos mudando o conceito e nos tornando, de fato, uma indústria. No canteiro de obra, fazemos pura e simplesmente a montagem. Assim, reduzimos os custos, ajudamos o meio ambiente e trazemos mais agilidade e rapidez para as obras”, explica Finatti.

Especializada em painéis e madeira serrada, a Berneck, com fábricas em Araucária (PR) e Curitibanos (SC), também está atenta à tendência mundial de construções em madeira. “A Berneck tem em seu portfólio a linha de serrados de pinus, para utilização estrutural e de fins nobres na construção civil. Este é inclusive um foco de expansão da empresa nos próximos anos”, afirma o gestor de painéis da unidade Berneck Curitibanos e presidente da Comissão de Estudos de Madeira Serrada da Abimci, Daniel Berneck.

De olho nesse novo nicho, a empresa, que atualmente produz quase 50 mil m³/mês de madeira serrada, tem investido em programas de qualidade, que passa pela seleção das sementes que vão dar origem aos plantios florestais até o controle do produto final e distribuição. “A Berneck utiliza em suas serrarias equipamentos com a tecnologia mais avançada do mundo, o que proporciona um melhor aproveitamento e garante dimensões estáveis e uniformes da madeira tanto serrada quanto aplainada. Toda a produção do Serrado Berneck é seca em estufas KD-HT (“Kiln Dried – Heat Treated”), o que confere teor de umidade uniforme e garante a perfeita estabilidade dimensional”, explica o gestor.

Qualidade x demanda

Segundo o engenheiro Guilherme Stamato, a preocupação com a qualidade da madeira é algo que deve ser prioridade no trabalho das indústrias que pretendem atender o setor da construção civil. “Não existe padrão, qualidade, nem confiança. Isso é algo que me frustra. Precisamos nos preocupar com a qualidade da madeira em todo o processo. Para isso, precisamos obter madeira de árvores adultas, acima de 25 anos; madeira seca em estufa após tratamento em autoclave; classificação visual e mecânica; identificação de classe, fornecedor e teor de umidade”, afirma o engenheiro.

Para atender o gargalo da padronização, a Abimci – como entidade gestora do Comitê Brasileiro da Madeira ABNT/CB-31 – vem trabalhando na compilação dos conteúdos já existentes de normas técnicas de madeira serrada, para além de atualizar o acervo, compilar e desenvolver uma norma única de referência para o setor. “Os trabalhos estão na fase de desenvolvimento e consolidação do texto-base da norma, e em breve, será apreciado pelo setor e por todas as partes interessadas. Esta ação para a madeira serrada vem ao encontro com as demandas do sistema construtivo wood frame”, diz o superintende da Abimci, Paulo Pupo.

De acordo com a Associação, essa ação como objetivo garantir uma padronização dos produtos e disponibilizar produtos conformes e normalizados, e assim, aumentar o uso da madeira na construção civil. A intenção é que a norma única inclua todo o setor de madeira serrada, de coníferas a folhosas e especificadas por mercado, no que concerne à terminologia, aos requisitos e à classificação. Esse exemplo de ação para madeira serrada também se remete a outros segmentos de produtos madeireiros, como compensados, painéis, pisos, portas, “kit porta pronta” e divisórias.

O avanço de programas de certificação de produtos de madeira tem acontecido de forma importante nos últimos anos no Brasil, como ferramenta para suprir demandas de acesso ao mercado internacional, e mais recentemente, para atender aos requisitos da Norma de Desempenho de Edificações, da ABNT, que desde julho de 2013 estabelece exigências de conforto e segurança em imóveis residenciais. Pela primeira vez, uma norma brasileira associa a qualidade de produtos ao resultado que eles conferem ao consumidor, com instruções claras e transparentes de como fazer essa avaliação.

A Abimci, por exemplo, desenvolveu o Programa Nacional de Qualidade da Madeira (PNQM) e o Programa Setorial da Qualidade de Portas de Madeira para Edificações (PSQ-PME). De acordo com a associação, as empresas que certificam produtos por meio desses programas atendem aos requisitos técnicos da norma da construção civil, portanto, já estariam aptos para o sistema wood frame.

Alternativa para diminuir o déficit habitacional

Uma das bandeiras levantadas pelos principais atores envolvidos neste tema do uso da madeira na construção é a possibilidade do sistema construtivo wood frame ser uma solução para diminuir o déficit habitacional brasileiro, que, segundo dados do IBGE, atinge 5,8 milhões. Somente no Paraná, a Fundação João Pinheiro, a partir de dados do Censo 2000, informa que faltam mais 260 mil residências, dos quais 85,4% entre as famílias com renda mensal de até três salários mínimos.

Fonte: Fundação João Pinheiro (MG), Censo 2000 / Arte: Pedro Vieira

Fonte: Fundação João Pinheiro (MG), Censo 2000 / Arte: Pedro Vieira

Na avaliação do engenheiro e especialista em estruturas de madeira, Guilherme Stamato, este sistema construtivo pode ser a alternativa para diminuir o déficit habitacional no país, pois o tempo de construção é menor do que no processo tradicional, além de ser sustentável e possuir uma boa relação custo x benefício. “O wood frame também é versátil e possibilita projetos para diferentes obras e públicos”, afirma.

“Estamos num momento bastante fértil para as construções em madeira no Brasil. Não me lembro de ter vivido período de tanto desenvolvimento das estruturas de madeira como esse, que aparenta ser o início de uma grande evolução”, completa Stamato.

Mudança cultural é desafio para “popularizar” casas com madeira

 

Superados os obstáculos técnicos, de matéria-prima e mercadológicos, outro desafio é apontado por muitos como o mais desafiador para que as casas com madeira caiam no gosto popular: o preconceito de que a madeira não é capaz de construir habitações de qualidade.

“Culturalmente, o brasileiro é habituado a construções de alvenaria. É preciso mostrar que existem outras opções, entre elas a madeira de utilização estrutural, com diversos benefícios como sustentabilidade, economia e agilidade no processo construtivo”, defende Daniel Berneck.

Com foco na formação do público a respeito da importância das construções ambientalmente adequadas, a Berneck tem participado de eventos como a Greenbuilding Brasil Conferência Internacional e Expo, realizada no mês de agosto, em São Paulo. Para o evento, foi construída uma Casa Conceito com madeira em sua estrutura, além da empresa ter participado de uma palestra sobre as aplicações de madeira na arquitetura e na construção civil.

Casa Conceito com madeira em sua estrutura em evento para promover o uso do material / foto: Berneck

Casa Conceito com madeira em sua estrutura em evento para promover o uso do material / foto: Berneck

Na opinião do superintende da Associação Brasileira da Indústria de Madeira (Abimci), Paulo Pupo, é preciso eliminar um erro básico de conceito de algumas esferas do Governo, de que casas de madeira são construções de baixa qualidade. “Esse talvez seja o maior desafio que teremos ao longo de nossa jornada para a consolidação desse sistema no Brasil. Os exemplos aplicados em alguns dos principais países do mundo com construções em madeira, em larga escala e de diferentes conceitos, nos provam exatamente o contrário, pois esse é um sistema que traz soluções inovadoras e sustentáveis, economicamente viáveis, e com as garantias necessárias exigidas pelo mercado”, afirma Pupo.

Outra ação que deve caminhar em paralelo às questões da norma e da mudança cultural é o reconhecimento do método construtivo pelas instituições governamentais para que seja inserido dentro de linhas de financiamento oficiais. “Também é importante a criação de políticas públicas promovendo a interface entre governo, instituições e setor produtivo, que visem estimular o uso em larga escala do wood frame no Brasil”, completa o superintendente da Abimci.

 

Por que construir com madeira?

Confira o que as principais fontes ouvidas pela reportagem indicam como vantagens do sistema construtivo wood frame

Arte: Portal Madeira e Construção

Arte: Portal Madeira e Construção

 

Menos Co²

Uma tese de doutorado, desenvolvida pela pesquisadora e arquiteta brasileira Kátia Punhagui, revelou que o uso da madeira plantada na construção civil pode ser uma ótima estratégia para mitigar a emissão de CO². Para chegar a esse resultado, a pesquisadora analisou o business as usual, olhando para a habitação e levando em conta o número de casas construídas com madeira. Se duplicasse a quantidade do que é construído hoje utilizando a madeira de floresta plantada, seria possível diminuir entre 13 e 22% a emissão do CO². “Isso ocorre, porque a madeira plantada é considerada neutra em carbono, pois absorve previamente o carbono que será emitido ao longo do seu ciclo de vida, não variando o balanço final de carbono na atmosfera”, explica a pesquisadora.

Muitos países estão atentos a isso. É o caso de Alemanha, França, Japão e Rússia, que vêm incentivando o emprego da madeira por questões ambientais, como a mitigação das emissões de CO² e diminuição do consumo de energia na construção civil.

Outro ponto a favor do sistema deve-se ao fato da madeira ser o único material construtivo proveniente de fonte 100% renovável.

Resistência ao fogo

Edna Moura Pinto, arquiteta e doutora em Ciência e Engenharia de Materiais, realizou, em 2007, uma pesquisa pela Universidade de São Paulo – unidade São Carlos, que comprovou que a madeira apresenta boa resistência ao fogo. “Num incêndio, as temperaturas atingem temperaturas maiores que 1000°C. No entanto, o aço, a 500°C, já perdeu 80% de sua resistência, enquanto que o concreto começa a perder resistência a partir dos 80°C. A madeira, submetida a um severo incêndio, teve sua seção reduzida, mas não a ponto de eliminar sua capacidade de suportar seu próprio peso e o peso extra das barras de aço”, afirma.

 

Suprimento precisa de planejamento

Grupo de Trabalho que reúne setores privado e público pretende apresentar aos deputados estaduais projeto de Lei que crie condições para que base florestal do Paraná atenda à demanda atual e também a futura expansão das atividades de produção primária e industrial do setor

 

Para que as expectativas das indústrias da construção e madeireira possam se confirmar, um passo importante é garantir o abastecimento da matéria-prima: a madeira. Embora o Paraná tenha área e clima favoráveis para a produção florestal, estudos realizados em 2014 pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento em conjunto com o Institucional do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) apontavam para a necessidade de plantio anual de aproximadamente 43 mil hectares de florestas para atender à demanda existente no Estado, além do que já vem sendo plantado, sem considerar o índice de crescimento anual médio do setor. Estudos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) projetam um consumo crescente de madeira serrada, no mundo, em 2,5% ao ano até 2020. Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, esta mesma taxa vem se confirmando na casa de 4,4% ao ano.

Segundo a Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (Apre), o Estado possui 1,2 milhão de hectares de cultivos florestais, consome 51 milhões de metros cúbicos de madeira por ano, mas tem uma capacidade de produção – com a área cultivada existente – de 47 milhões de metros cúbicos.

Fonte: Grupo de Trabalho Plano Estadual de Cultivos Florestais / Arte: Pedro Vieira

Fonte: Grupo de Trabalho Plano Estadual de Cultivos Florestais / Arte: Pedro Vieira

Os trabalhos desenvolvidos pela Emater, que resultaram em um diagnóstico de produção e consumo florestal em 15 regiões do Estado, indicam que os efeitos do não planejamento da produção de matéria-prima de origem florestal já são sentidos pela base industrial, em variações significativas nos preços da matéria-prima utilizada. O documento revela que a má distribuição na oferta de madeira, para todos os setores indiscriminadamente (energia, madeira serrada, painéis) já é observada com intensidade desde 2015.

A partir desses levantamentos, um grupo de trabalho formado pela Emater, a Apre, a Embrapa Florestas, universidades e outras entidades do setor produtivo organizou uma proposta para o Plano Estadual de Cultivos Florestais. O documento servirá de subsídio para a formulação de um projeto de Lei para regulamentar a atividade no Paraná. O trabalho é consequência de uma audiência pública realizada no início de abril proposta pelo Bloco Parlamentar Agropecuário da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Depois de 60 dias de estudos e reuniões, a comissão especial apresentou, no início de julho, um relatório com as principais informações levantadas. O próximo passo do grupo será revisar o plano e apresentar, em um prazo de 90 dias, um anteprojeto de Lei sobre cultivo florestal aos deputados estaduais.

Amauri Ferreira Pinto, coordenador estadual de Produção Florestal da Emater e coordenador do grupo de trabalho (GT) para a criação deste plano estadual, afirma que a nova política pública sobre cultivos florestais deve ser urgentemente implementada para o desenvolvimento do setor florestal produtivo. “Para isso, deve-se pensar em projetos de médio e longo prazos, com horizonte mínimo de 50 anos, o que equivale à média de dois ciclos florestais”, afirma. Dessa forma, segundo o representante da Emater, será possível suprir a demanda atual e também a futura expansão das atividades de produção primária e industrial do setor.

No modelo proposto pelo grupo de trabalho, a expansão da base florestal produtiva vai enfatizar as pequenas áreas de produção nas propriedades rurais, dividindo a extensão florestal em um grande número de propriedades rurais – o chamado Mosaico Florestal Produtivo na Paisagem. Segundo o coordenador do GT, esse conceito reduz os impactos ambientais e contribui para a conservação dos solos e produção e manutenção de água, além de multiplicar os benefícios econômicos da atividade.

Num horizonte de 50 anos, a proposta do grupo é ampliar a base florestal estadual para dois milhões de hectares, o que vai garantir, no médio prazo, o suprimento da demanda existente por produtos de origem florestal e com qualidade superior à média do mercado brasileiro. Além disso, a comissão destacou que é possível gerar mais de 1,6 milhão de novos postos de trabalho, a um custo médio de R$ 2.536,22 por emprego gerado, o que vai contribuir para o incremento do índice de População Economicamente Ativa (PEA) no Estado.

Se colocada em prática, a proposta deve contribuir para essa transformação almejada pelas indústrias da construção e da madeira. “O mercado se movimenta por tendências. No caso da construção em madeira, se alguém deve apostar nessa tendência, é quem naturalmente já tem interesse em aumentar o consumo de pinus serrado no Brasil, ou seja, o próprio setor madeireiro. Cabe a nós trabalhar para que isso aconteça. É necessário esforço de todos os lados”, conclui o engenheiro e especialista em estruturas de madeira, Guilherme Stamato.

 

Por Juliane Ferreira e Maureen Bertol para o Portal Madeira e Construção

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