“É preciso conscientizar profissionais da construção”

8 de Março de 2016

Engenheiro e sócio-diretor da empresa Carpinteria, especializada em projetos de estruturas em madeira, Alan Dias concedeu uma entrevista exclusiva ao Portal Madeira e Construção.

 

Alan Dias, sócio da A Carpinteria

Alan Dias, sócio da A Carpinteria

Com destaque na área, ele vem proferindo palestras sobre estruturas de madeira em todo o país, ressaltando a importância do material e como ele pode ser trabalhado. Para Dias, o Brasil está atrasado no uso da madeira na construção em relação a outros países. Mas, no seu entender, já existindo uma valorização cada vez maior da matéria-prima. Confira a entrevista:

Madeira e Construção – Ainda existe uma resistência em construir com madeira no Brasil? Por que isto acontece? Isto vem mais de engenheiros e arquitetos ou do próprio consumidor final?

Não creio que há uma resistência em construir com madeira no Brasil. O que existe mesmo é uma enorme falta de conhecimento da capacidade do material madeira. Em geral, as pessoas acham lindo construir com madeira, muitas vezes é o sonho delas, mas acham que vai custar caro, que vai pegar fogo e que vai dar cupim. Os próprios profissionais, por falta de aprofundamento nos estudos sobre a madeira, acabam jogando contra. Infelizmente, nosso país vem de uma cultura de arquitetos e engenheiros que não estão acostumados a lidar com a madeira e ela sempre foi um material de acabamento e de adorno, como pisos, revestimentos, e obviamente material pra se construir telhado. Ainda bem que hoje em dia, com a internet, engenheiros e arquitetos têm acesso aos projetos em madeira feitos pelo mundo e acabam ganhando muito mais confiança no material.

Você precisou buscar formação fora do país para empreender em um negócio que tem a madeira como foco?

Não busquei nenhuma formação fora do país, mas sim informação. Aqui no Brasil existem poucos livros que falam de madeira, então teve uma época em que eu comprava muito livro de outros países que ensinavam técnicas e cálculos de estruturas em madeira. Tenho livros italianos, russos, canadenses, americanos e alemães na minha biblioteca. Fora isso, tive a oportunidade de trabalhar por algum tempo com um dos maiores engenheiros de madeira que já existiram no Brasil, o Dr. Callia, com quem aprendi muita coisa também. Outra coisa que me ajudou muito também foi o contato que tenho com engenheiros de madeira de todo o mundo. Trocamos informações de técnicas e cálculos de estruturas.

Como as escolas de engenharia e arquitetura no Brasil trabalham a questão do uso da madeira na construção?

Atualmente, eu tenho rodado o país palestrando sobre estruturas de madeira nas universidades. O que vejo em alguns cursos de engenharia é um retrocesso, com a eliminação da matéria de estruturas de madeira ou então a matéria sendo dada juntamente com as estruturas em aço. O que contrasta muito com os cursos de arquitetura, nos quais a madeira vem ganhando muito mais espaço e é muito mais difundida entre os alunos. Teremos então no futuro muitos jovens arquitetos querendo projetar em madeira, mas nenhum engenheiro que saiba calcular. No mínimo esquisito, não?

Quais são os obstáculos para aumentar a participação da madeira na construção? No Brasil, há estrutura para atender as demandas que surgem para projetos com madeira? No caso do projeto do Shopping Iguatemi de Fortaleza (feito pela Carpinteria), por exemplo, foi preciso importar matéria-prima e ferramentas.

Acho que o principal obstáculo é conscientizar estudantes, arquitetos e engenheiros sobre o uso da madeira. Participo de muitos fóruns de discussão no internet e quando o assunto é madeira vem sempre algum “entendido” querendo dizer o quanto estamos desmatando nossas florestas, que a madeira dá cupim, pega fogo… Enfim, toda essa bobagem de gente desinformada. E a conscientização deve ser feita mostrando casos de sucesso, com o incentivo do governo e em grande escala. Mas isto é uma utopia no Brasil, ainda. Aqui no Brasil, claro que temos condições de atender a demanda de projetos de madeira, porque ela ainda é baixa. Tanto que, no projeto do shopping, a demanda foi tão alta que tive que buscar um fornecedor fora do Brasil na época pra atender o prazo, qualidade e budget que o projeto exigia.

Imaginem que uma fábrica na Europa de madeira laminada colada produz em poucos dias o que a gente em todo Brasil produz em um mês. Felizmente, hoje em dia já existem fábricas como a Rewood, em São Paulo, que se modernizou nestes últimos dois anos e já teria capacidade de fornecer peças desse porte pra um projeto como o do shopping. A questão das ferramentas também foi um problema crucial. A gente não tinha aqui no Brasil furadeiras de baixa rotação, motosserras com lâminas compridas, serras de fita manuais, parafusos próprios pra madeira com comprimentos gigantes, e uma infinidade de outras coisas que dificultam o trabalho do carpinteiro. Por isso, a madeira aqui no Brasil é uma coisa artesanal, e não precisaria ser. Graças à obra do shopping, a Rothoblaas, que é o maior fornecedor de parafusos e ferramentas pra madeiras do mundo, se estabeleceu no Brasil e hoje temos à disposição todos esses elementos.

O que é necessário fazer para mudar este panorama?

O panorama está mudando. A demanda simplesmente não existe. Precisamos criar a demanda. Os arquitetos da nova geração estão ajudando. Vejo cada vez mais projetos em madeira. Os grandes arquitetos brasileiros também estão ajudando e estamos recebendo projetos de grandes nomes da arquitetura brasileira em madeira também. Isso é gratificante, pois vai aumentando a confiança do brasileiro no uso da madeira. Mas é preciso saber trabalhar bem com isso, com consciência, adquirindo madeira legalizada, fazendo cálculos estruturais corretos, projetos detalhados e uma execução primorosa com bom acabamento e garantia. Aí não tem pra ninguém! Mas ainda tem muito chão pra percorrer. O Brasil está ainda uns 20 anos atrasado no uso da madeira em relação ao mundo. O primeiro passo é deixar o preconceito bobo de lado.

Quais são as soluções encontradas que favorecem a madeira? Quais são as vantagens da madeira em um projeto arquitetônico?

Sem dúvida é muito mais barato curvar a madeira do que curvar o aço. Então, qualquer projeto que seja orgânico não tem como ganhar da madeira. E hoje os projetos estão cada vez mais orgânicos, que bom! A madeira também é muito leve e fácil de transportar e é tão “pré-fabricável” quanto o aço, que é o eterno concorrente da madeira. Sem falar que usar a madeira é infinitamente mais sustentável que usar o aço. Além da beleza óbvia da madeira, o projeto arquitetônico se torna forte candidato a receber selos ecológicos pelo uso consciente dos materiais, se torna leve e desmontável. A obra é totalmente seca e pelo menos cinco vezes mais rápida. Não há resíduos e você vai deixar as pessoas mais felizes pelo contato com um material natural.

 

Por Joyce Carvalho para Portal Madeira e Construção

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