Edifícios em madeira terão espaço no Brasil?

17 de setembro de 2018

Esta série especial de reportagens sobre o momento que vivem as indústrias da construção e da madeira no País apresenta um panorama sobre as possibilidades de negócios para os sistemas construtivos em madeira, os desafios a serem superados e destaca o protagonismo do Paraná     

Vila Madalena. Uma das regiões mais valorizadas de São Paulo sempre é notícia quando se trata de novidades e tendências na vida paulistana. Pois a Vila Madalena foi o lugar escolhido para o projeto que pretende mudar a construção civil brasileira: um edifício de 13 andares erguido com madeira.

A notícia pode ter pego muita gente de surpresa, mas foi uma ideia extremamente bem estudada pela Amata, uma empresa do segmento de base florestal do Brasil, com operações no Paraná e no Norte do País, que teve a iniciativa de partir para um projeto de construção civil deste porte tendo a madeira como o principal material construtivo. Mas é possível erguer um prédio de 13 andares com madeira?

Sim, e com segurança, durabilidade, resistência, velocidade e sustentabilidade, como outros países já estão fazendo. Este será o primeiro prédio de grande porte em madeira do Brasil, pelo menos até o momento.

O projeto do chamado Edifício Amata foi desenvolvido pela empresa em parceria com o escritório de arquitetura franco-brasileiro Triptyque. Serão 4,7 mil metros quadrados de área total nos 13 andares para usos múltiplos, como coworking, coliving, lojas e restaurantes.

Conforme a descrição da equipe responsável pelo projeto, o Edifício Amata terá uma linha “Urban Forest”, fazendo uma ligação entre o interior e o exterior do ambiente construído. Se a madeira é parte essencial na estrutura deste prédio, o uso da vegetação o complementa, ainda mais à silhueta escalonada do edifício. O próprio escritório Triptyque divulgou que o projeto faz uma metáfora a uma “floresta urbana habitável, com a madeira visível e invisível”.

Se por aqui o Edifício Amata é uma novidade “daquelas”, a construção de um prédio deste porte com madeira engenheirada, preparada especialmente para isto, já é uma realidade em várias partes do mundo. Alguns países vêm se destacando neste tipo de construção e no desenvolvimento de projetos nesta área, como a Austrália, os Estados Unidos e, especialmente, o Canadá.

O país da América do Norte se tornou modelo de como os prédios em madeira são eficientes na sua construção, no seu desempenho e na sua função, e uma prova de que os projetos de edifícios em madeira não precisam ficar apenas no papel.

Exemplo disso é o Brock Commons Tallwood House, prédio de 18 andares e 54 metros de altura. Este edifício fica na cidade de Vancouver e é usado como moradia estudantil, na Universidade de British Columbia. Quando foi concluído, em setembro de 2017, era considerado o prédio em madeira mais alto do mundo.

Foi um case tão emblemático que o programa Wood Works!, desenvolvido pelo Conselho Canadense da Madeira com o objetivo de estimular o uso do material na construção civil, fez um longo estudo sobre este projeto e o divulgou julho deste ano.

(Foto: Naturally.com via ArchDaily)

O Brock Commons Tallwood House foi o primeiro edifício com madeira maciça a atingir 18 andares, em todo o mundo, e teve um complemento de aço estrutural e concreto armado. Isto também vai ocorrer no Edifício Amata. O projeto brasileiro é de um prédio híbrido, no qual serão utilizados concreto e aço, mas o “carro-chefe” continua sendo a madeira engenheirada, na forma de painéis de madeira laminada cruzada (CLT). Esta é a tecnologia que está permitindo erguer estruturas deste porte em madeira. No caso do projeto canadense, também foram usados outros tipos de painéis de madeira engenheirada.

As equipes envolvidas no trabalho concluíram o Brock Commons Tallwood House em apenas 70 dias. Este período não considerou o tempo necessário para a fabricação dos painéis de madeira nas fábricas e de outros produtos necessários para a obra.

Há uma escalada de projetos e construções em madeira, conforme anúncios de escritórios de arquitetura, design e engenharia; sites e outras publicações especializadas; dados apresentados por instituições do setor.

O Wood Works, do Conselho dos Produtos de Madeira dos Estados Unidos, divulgou dados referentes a junho de 2018 sobre a quantidade de projetos de edifícios com madeira engenheirada em andamentos ou concluídos no país. Eram 408 até então, em praticamente todas as regiões. Apesar de os Estados Unidos tradicionalmente ser um mercado com visão da madeira na construção civil, até há pouco tempo os edifícios em madeira não apareciam nos novos projetos.

Não existe condição ainda de fazer comparações com a realidade brasileira. O Edifício Amata será o primeiro em CLT no País. No entanto, já existem prédios sendo construídos com madeira no Brasil. São edifícios de até quatro andares, erguidos com um produto de madeira diferente do CLT: é com o sistema construtivo wood frame. Com esta tecnologia, a construção de um empreendimento de 250 unidades de 44 metros quadrados, em prédios, pode ser três vezes mais rápida em relação à alvenaria comum, além de outros benefícios que a madeira proporciona.

Por Joyce Carvalho para o Portal Madeira e Construção
Edição da série especial: Juliane Ferreira

Confira ainda as outras reportagens da série especial “Madeira para toda obra”:

 

“Por dentro do Edifício Amata”: entrevista com Alan Dias

É preciso mais do que projetos para construir um edifício de madeira

 

Brasil pode adotar a tecnologia aprendendo com os “erros” de outros países

Escala de negócios: o que falta para deslanchar a construção com madeira, segundo as indústrias

Compartilhe
Voltar para Notícias

Cadastre seu email e receba nossa newsletter