Educação para conhecer a madeira

19 de julho de 2016

“Precisamos entrar com uma educação acerca do tema já no nível fundamental para criar a consciência e a demanda”, afirma a professora da UFPR, Lisana Schmitz

Enquanto diversos países ao redor do mundo já têm a madeira como um dos principais materiais construtivos, o Brasil ainda caminha para popularizar a matéria-prima e esbarra no preconceito.

O portal Madeira e Construção conversou com as professoras da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Andrea Berriel, chefe do departamento de Arquitetura e Urbanismo, e Lisana Schmitz, coordenadora do Centro de Estudos em Geoprocessamento, e, na opinião delas, é preciso investir na educação de base para mudar esse cenário. Andrea diz que “fala-se muito, mas faz-se pouco” e que “toda arquitetura tem que ser sustentável”. Acompanhe a entrevista a seguir.

Como tem evoluído a discussão sobre construção sustentável no Brasil?

Andrea Berriel – Fala-se muito, mas faz-se pouco. Toda arquitetura tem que ser sustentável. Na boa arquitetura, um projeto tem que ser pensado para aproveitamento da luz natural, ventilação dos espaços, opção por materiais menos danosos. É preciso ser mais sustentável. Mesmo assim, acredito que o país ainda engatinha em tecnologia. Tudo começa com educação, tudo começa na escola. A maioria dos currículos das universidades não tem, até agora, uma cadeira que fale sobre madeira ou sobre sustentabilidade. Por isso, é um conhecimento que precisa que ser construído. Nossa tarefa é fazer pesquisa na área, transformar o conteúdo em centros de pesquisa, envolver alunos e aplicar isso na arquitetura que fazemos, o que não é fácil. Precisamos encarar o desafio, ir lá e fazer. Não é fácil, porque ninguém deu isso pronto. O aquecimento global, por exemplo, ninguém sabe se é reversível ou não, mas sabemos que existem coisas que amenizam. O uso da madeira pode ajudar, porque a matéria-prima tem uma cadeia de produção mais sustentável.

Como está o ensino nas universidades hoje? As academias ensinam futuros arquitetos e engenheiros a projetarem com madeira?

Andrea Berriel – Os estudantes aprendem. Na UFPR, por exemplo, dentro da disciplina de Estruturas, os alunos aprendem “Estruturas de madeira”. Isso acontece na maioria dos cursos, porém, a maneira como se ensina é muito difícil para o aluno e a maior parte deles tem grandes dificuldades nessa matéria. Também temos o problema da cultura. A maioria dos profissionais ainda acredita que a madeira não dura e que pode ter problema. E é aí que temos que mostrar que não é a madeira; é o desenho, o projeto, porque se você usar bem o material, ele vai ter um bom comportamento. Temos que saber usar cada material para utilizar o máximo de suas características e do seu desempenho. Os alunos estão muito interessados. O que acontece é que não temos no corpo docente tantas pessoas envolvidas com o tema para conseguir suprir a demanda deles. Nossa formação foi deficiente na área e agora estamos tentando dar esse salto, para poder melhorar a formação dos alunos de hoje para que eles possam ir muito mais longe.

Quais são os grandes desafios para que essa discussão de construção sustentável possa avançar?

Andrea Berriel – Eu acredito que o principal desafio é encontrar o equilíbrio entre os materiais e uma boa eficiência. Na área da arquitetura e da construção com madeira, vejo dois gargalos: o desenvolvimento da tecnologia, para que os arquitetos aprendam e compreendam o material para utilizar bem, desenhar adequadamente e detalhar; e o suprimento, porque toda essa discussão tem que estar alinhada com a indústria, com o manejo, com a produção madeireira. Não podemos deixar cada um de lado. Será que se conseguirmos aumentar a demanda, teremos madeira suficiente para suprir? A curto prazo, não. O desafio é esse. Temos muitas coisas para melhorar, para, daí, a madeira ser vista da forma que ela é: excelente. E não como um material para tampar buraco. Muitos dizem que a madeira é um material legal para uma casa de campo ou de praia, porque se der problema, tudo bem. Não pode ser assim. A madeira pode ser melhor empregada em todas as casas, em qualquer lugar. Precisamos aprender a trabalhar com a madeira. Também temos que contar com os engenheiros florestais para regularem esse suprimento. O Brasil ainda está engatinhando, infelizmente, porque não reconhece suas próprias riquezas. As madeiras de florestas nativas, por exemplo, têm características tecnológicas excepcionais. O mundo inteiro olha para as nossas madeiras, porque eles não têm nada parecido. Por que não conhecemos e não valorizamos? Por que não as transformamos na maior riqueza do Brasil? Temos a capacidade, mas não temos a tecnologia para fazer corretamente. Por isso é que tudo começa na educação.

Quando se fala em investir primeiro na educação, de que forma isso deveria ser feito?

Lisana Schmitz – Precisamos entrar com uma educação acerca do tema já no nível fundamental para criar a consciência e a demanda. Essa é a chamada educação de base. No ensino superior, temos que criar a capacidade e estimular a exigência do profissional que está saindo da faculdade, porque ele vai atrás desse mercado e vai querer mais tecnologia, aprimoramento, estoque e mais condição de utilizar. Aí, sim, teremos uma mudança. Quanto mais se difundir o uso, mais ficará provado que a madeira é um material excelente. Isso vai ajudar a quebrar o preconceito que existe até hoje de que a madeira é um material associado à pobreza, à degradação, à facilidade de incêndios. São pensamentos equivocados. Mas se tivermos essa divulgação, essa ampliação do conhecimento com a visão sustentável, isso tende a mudar.

Andrea Berriel – A situação vem mudando, mas ainda temos um longo caminho pela frente. Não só na educação, mas também no manejo das florestas, porque não adianta termos a tecnologia e não termos a madeira. As duas coisas levam certo tempo. Portanto, se começarmos já, em uma década começaremos a ter um cenário modificado, tanto do suprimento, quanto da educação. As duas coisas precisam andar juntas. Para incentivar a utilização, é necessário ter uma capacidade de fornecer para o mercado. Ao mesmo tempo, os profissionais devem estudar os produtos e as tecnologias que podem empregar para apoiar a utilização da madeira. Isso é promissor e pode gerar milhares de empregos em todos os setores, além de trazer rapidez e agilidade na obra.

O que as pessoas precisam saber sobre esse assunto?

Andrea Berriel – Principalmente que os mitos que rondam a construção com madeira são apenas mitos. Em caso de incêndio, por exemplo, a madeira se mantém integra por muito mais tempo do que outras estruturas. O aço é o que vai ruir mais rápido, seguido do concreto. A madeira aumenta o tempo de fuga. Sobre a duração, fiz um projeto há 15 anos, exposto a chuva e sol, e a casa está da mesma forma, intacta. Isso é possível quando se conhece o material e se faz o procedimento correto. Temos muitas madeiras boas para usar na construção, que são extremamente resistentes. É possível aplicar um bom protetor, como o Stein, que é algo autorizado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e ecologicamente viável.

O que já é possível hoje com madeira?

Andrea Berriel – Absolutamente tudo. Temos a madeira maciça e também produtos engenheirados excepcionais. Na parte tecnológica não há limite; é possível fazer tudo com madeira. Basta só melhorar a nossa compreensão desse universo dentro das escolas e na cabeça dos profissionais, tanto de arquitetos quanto de engenheiros civis. Isso é o que precisa mudar.

A madeira vai ser um dos materiais construtivos do futuro?

Andrea Berriel – Ela vai ser protagonista. Ela poderá ser trabalhada em conjunto com outros materiais, como o concreto e o aço, mas ela vai ser bem utilizada, com inteligência. Conforme o mundo está caminhando, essa demanda vai se tornar mais frequente, porque as pessoas estão se preocupando cada vez mais com separação do lixo, tratamento de esgoto etc. Devemos sempre nos perguntar o que cada um pode fazer para melhorar o planeta, porque isso não vai vir de cima. A discussão está surgindo pelo viés da sustentabilidade para depois chegar na construção civil, onde ela é importantíssima. Mas aos poucos vamos conseguir diminuir as barreiras e popularizar o uso da madeira.

O Brasil enfrenta um problema sério, que é o déficit habitacional. A madeira poderia ser uma boa opção, até pela rapidez da obra?

Andrea Berriel – Sem dúvidas, contanto que haja uma racionalização para que tenhamos uma economia de escala. Se houver pesquisa séria na área e economia de escala, com certeza a madeira pode ser a solução, porque é um material renovável, rápido para construir e seco. Por conta da rapidez, seria possível atender um número maior de pessoas. Certamente a madeira é excelente para a habitação de interesse social e também para a habitação de emergência. Mas, de novo: o importante é o dialogo com o setor produtivo. Uma coisa está ligada à outra para ter essa economia de escala.

Quais são os próximos passos?

Lisana Schmitz – As oportunidades estão muito mais ligadas à profissionalização do país e à capacidade de atender à demanda interna e até externa, porque a nossa madeira é um produto espetacular. Os próximos passos passam por políticas públicas de incentivo e de dar seguimento a ações que incentivam o manejo responsável da madeira, além de desenvolvimento tecnológico para conseguir suprir demanda. E a educação, que é fundamental.

Entrevista concedida à jornalista Maureen Bertol para o Portal Madeira e Construção

Compartilhe
Voltar para Notícias

Cadastre seu email e receba nossa newsletter