Escala de negócios: o que falta para deslanchar a construção com madeira, segundo as indústrias

17 de setembro de 2018

Tradicional Estado madeireiro, Paraná pode ser importante fornecedor de matéria-prima e de produtos industrializados para este mercado

O protagonismo do Paraná não está apenas na montagem do primeiro prédio em madeira no Brasil. O Estado já tem uma participação na trajetória da construção com madeira e ela poderá ser ainda mais intensa, pois a cadeia paranaense de base florestal é uma das mais completas do País, dos plantios, passando pela pesquisa e transformação.

As empresas de base florestal estão acompanhando a movimentação do mercado, suprindo a demanda existente para o segmento da construção civil. E, quando houver um aumento pela procura por madeira, haverá condições de atender as indústrias que quiserem fabricar produtos de madeira engenheirada. Quem garante é o presidente da Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (Apre), Álvaro Scheffer Junior.

De acordo com ele, a madeira existe, mas ela depende de um manejo diferente para atender a construção civil. Hoje, as empresas de base florestal atendem basicamente as indústrias de papel e celulose, que fazem um manejo de ciclo curto nas florestas.

Foto Berneck

 

“Já a construção demanda de uma madeira mais densa, que precisa de um ciclo mais longo de manejo. É uma madeira mais estrutural. Atualmente, há pequenos e médios produtores que ainda fazem um manejo um pouco mais longo. Com o desenvolvimento de um sistema construtivo como o wood frame, por exemplo, volta a ser interessante uma madeira com um ciclo mais longo, pois é um produto mais valorizado”, aponta Scheffer Junior.

Isso está diretamente ligado com a necessidade da indústria de criar escala para a produção e, assim, fazer girar todo este sistema para transformar efetivamente a construção em madeira como uma tecnologia viável não apenas de maneira sustentável, mas também de forma comercial. Evidentemente que a indústria enxerga a massificação das casas de madeira e os edifícios erguidos com este mesmo material como uma grande oportunidade de negócios.

O setor madeireiro já “comprou a ideia” de que a construção com madeira tem um enorme valor agregado, como a velocidade, economia (seja com insumos, seja com mão de obra), sustentabilidade, durabilidade e limpeza (esta é considerada uma construção seca). “Mas não adiantam apenas projetos pontuais. Precisamos gerar escala de negócios”, ressalta o superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) – cuja sede fica em Curitiba (PR), Paulo Pupo.

No entendimento dele, isso virá a partir do momento que toda a cadeia da construção com madeira estiver normalizada – o que ainda não ocorre no País. A Abimci e diversas entidades ligadas à cadeia de base florestal e madeira e da construção civil estão reunidas na elaboração da norma técnica do wood frame. Este trabalho começou dentro do projeto Casa Inteligente, na Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), em 2009, e tomou uma grande forma. O texto, que está sendo desenvolvido no âmbito da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), prevê regras para a construção com esta tecnologia de edificações de até dois pavimentos.

De acordo com Pupo, até o fim de 2018, a primeira parte do texto da norma para wood frame será colocada em consulta pública nacional. “Somente se proporciona um viés de negócios quando há regras, quando há balizas. Isso gera oportunidades e vai inserir o sistema nos agentes financiadores, que é o que precisamos. A norma técnica vai levar segurança para as construtoras, aos agentes financiadores e ao público consumidor. As normas são para toda a sociedade, pois há uma enorme demanda reprimida por habitação”, analisa.

O superintendente da Abimci lembra que o trabalho não vai terminar com a publicação da norma técnica, e que esta responsabilidade não deve ser compartilhada apenas pela indústria da madeira. “Este é um trabalho conjunto de todos os envolvidos para a consolidação de um sistema construtivo. Posteriormente à publicação, teremos que divulgar intensamente a norma”, enfatiza. Para Pupo, a norma técnica será um “divisor de águas” no mercado da madeira.

Será aberta uma “janela de oportunidades”, e não apenas para a produção de painéis para wood frame, como de toda a cadeia de suprimentos, que é bastante extensa. As indústrias de madeira serrada, decks, portas, pisos e de todos os segmentos de madeira processada podem ser diretamente beneficiados com este movimento na construção civil.

Outra oportunidade está na fabricação da Madeira Laminada Cruzada (CLT), um produto que ainda não foi descoberto pelas empresas brasileiras, como explica o engenheiro Alan Dias, um dos mais especializados neste segmento no País.

De acordo com Paulo Pupo, da Abimci, a norma técnica está concentrada inicialmente no wood frame e todo o trabalho será para consolidar este sistema. Ultrapassada esta etapa, a tendência é abrir a discussão para a inclusão de novos produtos e tecnologias que levam a madeira, como é o caso do CLT, e assim crescer a normalização e a escala da construção com madeira no País.

Por Joyce Carvalho para o Portal Madeira e Construção
Edição da série especial: Juliane Ferreira
Foto da capa: Amata (divulgação)

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