Faltam dados sobre destino de resíduos de madeira

11 de Abril de 2016

Pesquisa realizada na USP revela que para resolver questão dos resíduos de madeira na construção de casas é preciso investir em reuso ou recuperação

Um estudo realizado na Universidade de São Paulo (USP-ESALQ) mostra que a indústria da construção de casas em madeira precisa aperfeiçoar o destino e o tratamento dado aos resíduos. O doutorando em Recursos Florestais Victor A. De Araujo conduziu uma pesquisa intitulada “Resíduos de madeira gerados pelas empresas produtoras de casas de madeira em São Paulo”, revelando que o setor não possui dados detalhadas dos resíduos gerados em suas produções. Também não foram encontradas informações concretas acerca do volume atual e tipos de resíduos gerados. Além disso, o pesquisador revela que os problemas se evidenciaram pelo manejo inadequado na produção, o baixo nível de racionalização do material, a pouca reutilização dos resíduos madeireiros e a falta de separação seletiva dos resíduos de madeira.

No Brasil, a questão é regulamentada pela Lei 12.305, de 2010, que indica, entre outras coisas, que o resíduo sólido não pode ser eliminado em esgotos ou cursos d’água. Segundo o pesquisador, a geração de resíduos tornou-se um problema crescente entre as empresas do setor florestal. Para resolver o problema, o reuso ou a recuperação desses resíduos poderia ser um bom caminho para reduzir esse passivo ambiental.

Na avaliação de Victor De Araujo, o estudo realizado poderia ajudar as indústrias de casas com madeira a criarem planos inovadores de gerenciamento de resíduos para processos ambientalmente corretos. Dessa forma, seria possível aumentar a competitividade e a eficiência produtiva e reduzir os custos de produção de casas com madeira.

Os resíduos lignocelulósicos, de acordo com o estudo, têm ampla utilização para fins energéticos, novos compósitos ou matéria-prima básica para produtos de maior valor. O grande problema é que o atraso tecnológico da extração florestal é similar ao que é visto no processamento da madeira e na sua classificação mecânica.

“Por conta da obsolescência das máquinas, grandes quantidades de matérias-primas residuais são perdidas. Embora os resíduos apresentem potencial de uso, a realidade brasileira é complexa e estagnada”, ressalta.

Segundo De Araujo, São Paulo tem uma importante vocação no setor florestal brasileiro com relação às matérias-primas básicas, ocupando o segundo lugar na lista de maiores produtores de toras, o que representa 17% da produção nacional. Durante a pesquisa, foram verificadas as indústrias de casas de madeira no Estado e identificados os resíduos industriais para chegar à estimativa do volume de resíduos madeireiros por empresa e aos tipos, características e destinos das sobras geradas em uma produção padrão de uma casa térrea com 100 metros quadrados.

O estudo foi realizado com 29 fabricantes de casas de madeira localizados em 18 cidades do Estado de São Paulo e os resíduos madeireiros foram divididos em três classes: madeira serrada – tábuas, vigas maciças, entre outras; madeira tratada – modificada quimicamente com preservantes; e compósitos de madeira – painéis e vigas derivadas de madeira. Com relação aos tipos de madeiras, o doutorando ressaltou que as opções mais populares são as madeiras de florestas plantadas, por conta da alta disponibilidade e também pelos custos de cultivo e transporte, que são competitivos. No caso das madeiras nativas, ele aponta que os produtos são extraídos em sua maior parte de florestas manejadas da região Norte.

Sobre esse assunto, Victor percebeu, durante a pesquisa, que 83% das empresas paulistas ainda utilizam madeiras nativas na produção de casas, mas esta tendência está caindo justamente pelos preços elevados e pela baixa oferta. Do total de empresas analisadas, 11% já utilizam somente madeiras de florestas plantadas e 22% usam os dois tipos.

A proposta, daqui para frente, é tentar mostrar para as indústrias como fazer a identificação, quantificação e seleção dos resíduos de acordo com a composição, identificação e volume; de que forma recolher esses resíduos de forma seletiva; como fazer o descarte correto; como reaproveitar da melhor forma os resíduos; entre outros. De Araujo cita, ainda, que esse mercado tem muitas possibilidades e abre portas para pequenos fabricantes de produtos reciclados agregarem valor aos produtos sustentáveis, empresas fazerem a correta reciclagem de resíduos tóxicos para produzirem bens e muito mais.

“Também é importante lembrar que existe no Brasil hoje uma carência de políticas públicas incisivas que poderiam mitigar os passivos ambientais criados por esse problema, como os resíduos modificados quimicamente. É preciso que o governo brasileiro crie leis para incentivar e fortalecer as empresas fabricantes de casas com madeira a buscarem maior eficiência da produção e melhor gestão dos diversos resíduos gerados pelo setor da habitação e sua cadeia florestal-madeireira”, completa.

Por Maureen Bertol para o Portal Madeira e Construção

 

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