Madeira e outros elementos naturais levam bem-estar a hospitais

10 de dezembro de 2018

Já existe uma série de projetos que contemplam os benefícios gerados por estes materiais e produtos para favorecer pacientes, familiares e profissionais de saúde

A neurociência pode ajudar na elaboração de projetos arquitetônicos. Os impactos de determinados elementos na mente humana podem gerar sensações de bem-estar e aumentar a sensação de conforto aos usuários de determinado espaço. Mais do que isso: podem fazer com que a produtividade aumente. E quando a utilização de alguns artifícios ajuda na recuperação de pacientes? Pois já existem iniciativas neste sentido, e a madeira está relacionada a elas.

Alguns estudos, como no caso do realizado pela Human Spaces, indicam que a aplicação de elementos naturais em um ambiente gera apenas benefícios, conforme explica a arquiteta Priscilla Bencke, especialista em ambientes corporativos com aplicação da neuroarquitetura. Ela é responsável pela empresa Qualidade Corporativa Smart Workplaces, que fornece cursos nesta área. “Quando existe o contato visual ou o toque, cada vez que um sentido é acessado por meio dos elementos naturais, isto leva a uma lembrança, a uma memória, a um sentimento. E são boas as referências ligadas à natureza”, conta.

Hospital Universitário de Akershus é um dos exemplos do uso de elementos naturais – Mais sobre este case ainda nesta reportagem (Foto: CFMoller)

De acordo com Priscilla, existe ainda outra característica relacionada especificamente com o Brasil. É um país onde ocorreu a urbanização acelerada, e existem gerações que prezam pelo contato com a natureza, que querem estar em contato com a natureza. “A pesquisa da Human Spaces, que mostra a importância dos elementos naturais no ambiente de trabalho, aponta que há um aumento de 5% na produtividade e 15% no bem-estar quando há a presença deles nestes espaços”, revela a arquiteta.

De acordo com ela, as empresas estão vendo isto cada vez mais como investimento. Priscilla cita como exemplo as corporações do Vale do Silício, nos Estados Unidos, que já vêm há algum tempo adotando diferentes ferramentas no espaço de trabalho para que os colaboradores tenham ganhos além dos mecanismos de trabalho.

“Às vezes, os custos em fazer algo assim não são tão representativos na comparação com o retorno que se tem, pois existe ganho de produtividade. É um instrumento importantíssimo, pois gera um conjunto melhor”, salienta Priscilla. É preciso lembrar que as pessoas passam a maior parte de seu dia no ambiente de trabalho e, por isto, o bem-estar do funcionário se torna um item essencial para ele mesmo e para a empresa.

O projeto do Dyson Centre for Neonatal Care, no Reino Unido, priorizou a madeira para dar a sensação de casa aos familiares dos bebês prematuros – mais sobre este case ainda nesta reportagem (Foto: Feilden Clegg Bradley Studios)

Hospitais e centros de saúde

Os elementos naturais geram benefícios em qualquer ambiente corporativo, mas suas vantagens se estendem quando eles são aplicados em hospitais e outros ambientes relacionados à saúde. No exterior, há instituições que estão apostando nisso para levar mais bem-estar e conforto para pacientes, o que impacta diretamente no tratamento e no seu andamento e sucesso. “E não apenas isso: há impactos positivos para os familiares e para os profissionais de saúde, que trabalham sob intenso estresse, pela própria condução do trabalho. Torna-se importante para todas as pessoas”, afirma Priscilla.

A madeira entra claramente neste contexto. Ela pode aparecer de diferentes formas, especialmente em revestimento, mobiliário, portas, janelas e até mesmo quando o projeto prevê que parte da estrutura do edifício feita com este tipo de material fique exposta internamente.

O instituto de apoio ao câncer Maggie’s em Manchester, na Inglaterra, montou um espaço para os pacientes com elementos naturais, incluindo a madeira – mais sobre este case ainda nesta reportagem (Foto: Foster+Partners)

Especificamente sobre a madeira, um professor assistente da Universidade de Tampere, na Finlândia, conduziu um estudo em uma residência para idosos que mostrou que o uso da madeira em espaços internos gerou um impacto favorável no comportamento dos mesmos. A introdução de materiais de madeira no espaço gerou mais interação dos idosos com a equipe de profissionais da casa.

Segundo Marjut Wallenius, que é doutor em psicologia, a madeira tem um impacto psicológico sobre uma pessoa e efeitos redutores do estresse similares à natureza como um todo. Ele destacou algo bastante importante em uma reportagem de 2014 para o site Wood Products, da Finlândia, em artigo reproduzido pelo portal Madera Y Construccion: o impacto positivo da madeira não pode ser substituído por imitações deste tipo de material. Em suas observações, a qualidade de recuperação do sono e do estresse foi melhor em ambiente onde havia madeira do que onde existiam produtos que simulavam a madeira.

Hospital Universitário

Dentro desta proposta, a Europa vem se destacando no uso da madeira em hospitais e centros de saúde. O Hospital Universitário de Akershus, na Finlândia, é um destes projetos que se tornaram conhecidos por colocar a madeira no ambiente hospitalar, levando conforto e bem-estar aos usuários do espaço.

Hospital Universitário de Akershus (Foto: CFMoller)

Neste projeto, a madeira se tornou o material predominante. Ele aparece na fachada de um dos edifícios. Em outro prédio do complexo hospitalar, a madeira dá vida à área interna. Neste caso, há uma via principal coberta de vidro e a madeira faz o papel de ligação entre os demais ambientes abertos desta parte do hospital, onde há quiosques, farmácia, café, cabeleireiro e uma capela. Além disto tido, o design favoreceu a luz natural.

Hospital Universitário de Akershus (Foto: CFMoller)

O projeto Hospital Universitário de Akershus priorizou o ambiente aberto e informal, que foi projetado não apenas para as suas funções de saúde, mas também para atender os pacientes e seus familiares em uma diferente orientação. Os departamentos do hospital possuem dimensões, formas e expressões diferenciados, criando uma experiência visual inusitada para um ambiente como este, mas também facilita a localização. O projeto também deixou as distâncias curtas e uma organização clara, o que proporcionou mais tempo das equipes aos pacientes, segundo informações do escritório CFMoller, responsável pelo projeto.

Hospital Universitário de Akershus (Foto: CFMoller)

Centro Neonatal

O projeto do Dyson Centre for Neonatal Care, na cidade de Bath, no Reino Unido, foi elaborado pelos arquitetos do Feilden Clegg Bradley Studios. O objetivo era reformar as instalações já existentes e construir um novo andar no centro médico de cuidados para bebês recém-nascidos e prematuros. Tudo isto dentro de um conceito terapêutico inovador e em uma construção sustentável.

Dyson Centre for Neonatal Care (Foto: Feilden Clegg Bradley Studios)

O resultado foi a presença constante da madeira, percebida pelos usuários do espaço, sejam pacientes, familiares ou profissionais de saúde. O novo andar foi construído com madeira laminada cruzada (CLT), que fica exposta na parte interior do ambiente. O material aparece também em diferentes tipos de revestimentos, portas e janelas em todo o edifício. Conforme informações do próprio hospital, a madeira cria um ambiente mais calmo e com a aparência de residências.

Dyson Centre for Neonatal Care (Foto: Feilden Clegg Bradley Studios)

Um dos destaques deste projeto foi as claraboias. A luz natural veio por meio delas e de grandes janelas. Os pais e familiares destas crianças, além dos próprios profissionais de saúde, podem perceber como está o tempo lá fora – ou mesmo se é dia ou noite -, o que aumenta a sensação de bem-estar. A entrada de luz acontece em certas áreas do prédio, para proporcionar os benefícios citados, sem perturbar o funcionamento da unidade com luminosidade excessiva.

Dyson Centre for Neonatal Care (Foto: Feilden Clegg Bradley Studios)

Além disto, o centro de cuidados neonatais foi totalmente projetado para favorecer os cuidados aos bebês e o acompanhamento dos familiares. Existe um circuito no sentido horário das salas, na forma de um diagrama de intensidade de cuidado, como se fosse uma rota. Segundo o hospital, este caminho é muito importante psicologicamente para os pais, que lidam como uma progressão “física” no tratamento, até a alta.

Tratamento de câncer

O instituto de apoio ao câncer Maggie’s em Manchester, na Inglaterra, apostou em uma arquitetura bem diferente das clínicas e hospitais tradicionais para ajudar na recuperação de pacientes em tratamento. O projeto do escritório Foster+Partners foi feito para que as pessoas se sintam como se estivessem em casa.

Instituto de apoio ao câncer Maggie’s (Foto: Foster+Partners)

Foi construída dentro da clínica uma estufa, onde os pacientes se reúnem para uma série de atividades, incluindo a jardinagem terapêutica. Por ali, há ainda uma biblioteca, sala de ginástica, locais para pequenas reuniões, bate-papos informais e leituras e até uma cozinha, com uma grande mesa comunitária.

Instituto de apoio ao câncer Maggie’s (Foto: Foster+Partners)

A grande estrutura de madeira chama atenção por si só. Vigas expostas e treliças de madeira sustentam a cobertura, dando ainda mais beleza à estufa. Conforme a descrição da equipe do projeto, o telhado se eleva no centro para criar um mezanino, naturalmente iluminado por luzes que entram pelo teto de vidros triangulares.

Instituto de apoio ao câncer Maggie’s (Foto: Foster+Partners)

O espaço tem ainda o complemento do paisagismo. A intenção foi afastar qualquer referência hospitalar ou institucional. Por isto, vieram a madeira e outros elementos naturais.

Instituto de apoio ao câncer Maggie’s (Foto: Foster+Partners)

Neste vídeo, é possível acompanhar a construção da estufa:

Curso

A arquiteta Priscilla Bencke vai ministrar em Curitiba (PR) no mês de fevereiro de 2019 um curso sobre a aplicação da neuroarquitetura em ambientes corporativos. As informações sobre a capacitação estão aqui.

Por Joyce Carvalho para o Portal Madeira e Construção

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