Mudança no modo de pensar: um dos “dilemas” do setor da construção civil

13 de agosto de 2018

Os desafios da inovação no segmento e os próximos passos foram discutidos durante o WSI – We Shape Innovation, evento realizado em Curitiba (PR)

As novas tecnologias aparecem “a cada minuto”, mas ainda esbarram em um importante fator que faz a inovação na construção civil estar muito atrás de outras indústrias neste quesito: a cultura. O modelo tradicional passa por um choque com a chegada das chamadas construtechs, as startups voltadas para o setor, por exemplo, ou ainda com novas formas de se construir. O custo da tecnologia que pode trazer benefícios, como a redução dos gastos mantendo ou ganhando qualidade na obra, ainda demanda grandes investimentos. E isto faz com que construtoras e incorporadoras pensem duas vezes em apostar no novo.

A chamada Construção 4.0, com a conectividade e as soluções tecnológicas pautando o setor, pode ser considerada a nova etapa da indústria da construção civil. No entanto, ela precisa de uma nova forma de pensamento. Esta é a avaliação de Rafael de Tarso Schroeder, gerente de inovação e novos negócios do Centro Internacional de Tecnologia de Software (CITS). Ele foi um dos palestrantes do WSI – We Shape Innovation, evento promovido pela EVEHX Engenharia voltado para a inovação na construção civil, realizado em agosto em Curitiba (PR).

Rafael de Tarso Schroeder, gerente de inovação e novos negócios do Centro Internacional de Tecnologia de Software – no centro (Foto: Kelly Knevels)

“O que acontece na construção civil é um mindset, ou seja, uma forma de pensar mesmo, que está em transição entre pessoas que foram educadas no modelo tradicional para aquelas que estão vindo para o mercado. Na era da transformação digital eu consigo medir e ‘sensorizar’ para tomar decisões melhores. Se na construção civil, dentro de todos os processos, seja compra de materiais, entrega e experiência do cliente, for possível medir, ‘sensorizar’ e digitalizar, ela vai conseguir usar melhor essa informação a seu favor. São necessárias pessoas com essa visão digital dentro da construção civil”, opina. Schroeder enfatiza que a experiência inovadora envolve três pilares: tecnologia, negócios e pessoas.

Para Tiago Campestrini, engenheiro civil e CEO da empresa Campestrini, o momento é de disrupção. Ele proferiu palestra no WSI sobre “Como começar a inovar na construção civil” e citou como o segmento está atrás de outras indústrias neste sentido, apesar de destacar que, aos poucos, construtoras e incorporadoras estão vendo os resultados que podem vir com o que chega de inovação.

“A nossa posição quanto à inovação só me mostra oportunidades. O sentimento é de disrupção. O impacto da construção civil no PIB e sua importância social versus esse tanto de oportunidade que oferece mostra que há muito espaço para a disrupção. De dois anos pra cá, ao mesmo tempo, com esses fundos de investimento olhando para as construtechs, construtores e incorporadores, sobretudo, já veem um cenário de inovação e resultados, e que não é algo de uma ou outra empresa”, indica Campestrini, que atuou recentemente como diretor técnico da Agência Curitiba de Desenvolvimento e se envolveu na criação do programa Vale do Pinhão, para o fomento da inovação na capital paranaense.

Tiago Campestrini, engenheiro civil e CEO da empresa Campestrini (Foto: Kelly Knevels)

Campestrini acredita que a inovação na construção civil possa “deslanchar” efetivamente a partir do primeiro semestre de 2019, com o incremento da produção na construção civil, novos projetos, novo tipo de visão e oferta de inovação.

No entendimento dele, a mudança de cultura necessária neste momento também passa pela forma como a construção encara o custo. A tecnologia ainda demanda um investimento alto, que nem sempre é bem encarada pela construtora ou incorporadora. Quem está “do outro lado” muitas vezes não enxerga o que “custo” pode se transformar em resultado.

“Culturalmente, a construção civil ainda é atrelada a olhar o preço e depois a qualidade. Há ainda a visão, no meu entendimento, que reduzir custo é pegar menos no material e na mão de obra porque seria assim que reduziria o preço na obra. Quando a pessoa passa a barreira e pensa em inovar, ela se choca, pensa e volta à estaca zero, muitas vezes”, afirma. “Claro que a maioria das inovações, dos novos modelos de negócios, prevê tecnologias mais baratas ou modelos de negócios que facilitem este acesso para que isto não seja uma barreira. Isto é ainda é um ponto que ‘pega’ para as construtoras e incorporadoras inovarem. Também temos que fazer a nossa parte nisto e pensar em alternativas”, declara Campestrini.

Modo de construir

A inovação e a mudança de pensamento também estão na forma de construir. O case da Tecverde, especialista no sistema construtivo wood frame, foi apresentado durante o WSI por Caio Bonatto, CEO da empresa, com a palestra “Empreendedorismo e Inovação na Construção Civil”.

Caio Bonatto, CEO da Tecverde (Foto: Kelly Knevels)

Ele relatou as dificuldades de chegar até a construção de prédios de quatro andares com esta tecnologia, patamar atingido pela Tecverde. Entre os exemplos usados por ele foram a busca e a aprovação por financiamento bancário e a homologação do sistema no Ministério das Cidades, o que permitiu o uso do sistema em empreendimentos do programa Minha Casa Minha Vida.

Bonatto mostrou as vantagens do wood frame, como a velocidade na produção dos painéis de madeira na fábrica, com uma equipe reduzida, e na montagem no canteiro de obras. Atualmente, a Tecverde tem capacidade para produzir cinco mil casas por ano. “É possível fabricar uma casa de 50 metros quadrados em uma hora, com quatro pessoas, com todas as conexões para elétrica e hidráulica”, conta.

Por Joyce Carvalho para o Portal Madeira e Construção

Foto de destaque da reportagem: Kelly Knevels

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