“Ninguém recomenda um material que não conhece”

23 de Março de 2016

Egressos de cursos de graduação que não possuem carga horária mínima em madeira poderão ter restrição em registro profissional

Pesquisadores e instituições ligadas ao uso estrutural da madeira estão estudando pedir ao Ministério da Educação (MEC) e aos Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia (CREAs) medidas para que alunos egressos de cursos de graduação em Arquitetura e Engenharia Civil sem carga horária mínima em madeira tenham essa restrição em seus registros profissionais. A informação é do professor e coordenador do Laboratório de Madeiras e de Estruturas de Madeira (LaMEM) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), Carlito Calil Júnior, em entrevista ao portal Madeira e Construção.

O profissional, que tem doutorado em Engenharia Industrial pela Universidade Politécnica de Catalunya e pós-doutorado na Universidade de Karsruhe (Alemanha) e no Forest Products Laboratory (Estados Unidos), lamenta a situação curricular das escolas superiores brasileiras. “Este é um ponto-chave neste país, a maioria das escolas, infelizmente, não tem madeira no currículo mínimo. Simplesmente não tem. A madeira está, quando muito, em três horas por semana durante um semestre em um curso de graduação. Concreto tem 30 horas em vários semestres, metálica tem 20”, explicou.

Para ele, a falta de orientação sobre o material durante a formação acadêmica pode implicar no baixo uso, apesar do potencial construtivo do elemento. “Ninguém recomenda um material que não conhece. Como um arquiteto irá trabalhar um projeto em madeira se nunca teve madeira? Um engenheiro não vai projetar também com madeira se não teve conhecimento sobre estruturas de madeira e dimensionamento”, avalia o professor.

Calil comenta que os pesquisadores vêm atuando junto aos cursos superiores pela ampliação da carga-horária e também acredita que os avanços nas normas e regulamentações do uso estrutural do produto, que estão em desenvolvimento, possam dar mais segurança aos profissionais. “Essa é a ideia. Mesmo que a pessoa não tenha tido uma formação tão robusta em madeira, lendo a norma terá todas as condições de projetar uma estrutura segura e econômica. A filosofia é criar regras de dimensionamento segundo os métodos mais atuais no mundo”.

Pesquisa aplicada

Além da ampliação das horas dedicas ao tema, Calil Júnior também defende que a pesquisa seja adequada à realidade de mercado e possa ser aplicada. É isso que ele e sua equipe vem buscando na UFSCAR. “Já conduzimos mais de 150 dissertações e mais de 50 teses de doutorado, sempre com ênfase na indústria. Todos os trabalhos que nós fazemos é correspondente à aplicação na indústria,  com linhas de pesquisa que acompanham o sistema internacional.  Faço parte de várias comissões internacionais e o que nós pretendemos é que o Brasil possa andar no mesmo nível de tecnologia do mundo, equivalente ao que se vê em outros países”, defende.

O professor reconhece que o uso amplo da madeira depende de uma forte industrialização do produto. “Acho que esse é o ponto-chave na madeira hoje em dia. Chega de pegar o carpinteiro e fazer uma estrutura de cobertura de treliça que vai demorar muito tempo, isso não é competitivo. Hoje, a competição é possível em termos de industrialização. Fabricar uma treliça na indústria, unir à viga de madeira laminada colada, e ter um resultado que você pode montar rapidamente, sendo competitivo com o aço em vários aspectos”, completa.

Por Karla Losse Mendes para o Portal Madeira e Construção

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