“Por dentro do Edifício Amata”: entrevista com Alan Dias

17 de setembro de 2018

O engenheiro Alan Dias, atualmente, é um dos mais requisitados no País no desenvolvimento de projetos que levam madeira engenheirada, ou madeira massiva. Ele também está ligado ao projeto do Edifício Amata, que será erguido na Vila Madalena, em São Paulo.

Em entrevista exclusiva ao portal Madeira e Construção, ele destaca como o prédio será um marco na construção civil brasileira e detalha os produtos de madeira que serão usados no empreendimento.

Madeira e Construção: O projeto do Edifício Amata pode ser o grande marco da construção de edifícios em madeira no Brasil? Por quê?

Alan Dias: O projeto anunciado para a construção do edifício em madeira de iniciativa da Amata com certeza será um grande divisor de águas na construção civil brasileira. É um edifício que será híbrido, sendo utilizado concreto, aço, mas, principalmente, madeira engenheirada. A ideia desse tipo de construção é ser em quase sua totalidade pré-fabricada, a ponto de ser possível se construir na média de um andar por semana.

Isso traz ao investidor um retorno muito mais veloz pois a obra fica pronta até 5 vezes mais rápida do que se fosse em concreto armado, por exemplo. Além disso, por ser pré-fabricada, teremos menos trabalhadores na obra, diminuindo o risco de acidentes. Será uma obra limpa e sustentável. Esperamos que com essa construção possamos incentivar outros investidores em construir de uma forma muito mais racional e sustentável.

Madeira e Construção: Você foi até Vancouver no ano passado para um benchmarking com canadenses, um país com já avançada experiência na construção de edifícios de vários pavimentos em madeira, justamente para trabalhar neste projeto brasileiro? Como foi esta experiência? O que trouxe de novo a partir deste contato que será aplicado no projeto de São Paulo?

Alan Dias: Sim, fui até Vancouver para fazer um estudo estrutural do edifício Amata com o Engenheiro Eric Karsh, da Equilibrium Consulting. Esse estudo me fez perceber as várias possibilidades que esse tipo de construção pode ter. A troca de experiência com os canadenses me abriu os olhos para os diversos detalhes que não conseguimos achar nos livros, na internet ou universidades. Pude ver de perto detalhes de ligações e como elas são calculadas. Além disso, estar do lado de um grande escritório que faz projetos de madeira massiva no mundo todo foi uma experiência incrível. É gratificante ouvir os conselhos direto da fonte. Para o prédio em São Paulo, devemos trazer os sistemas de lajes mistas de CLT com concreto armado, um sistema similar ao steel deck, só que muito mais eficiente.

Madeira e Construção: O edifício em São Paulo será feito com CLT. Será em toda a estrutura? E como definir os ganhos que esta tecnologia permitiu para o desenvolvimento deste tipo de construção? Foi a CLT que “mudou o panorama” e permitiu pensar em prédios em madeira, ainda mais com vários pavimentos e até mesmo arranha-céus?

Alan Dias: O edifício em São Paulo será um misto de Glulam (Madeira Laminada Colada), CLT nas lajes, concreto armado nas fundações, subsolos e lajes e aço nas ligações. Ou seja, um mix de todos os materiais estruturais. Porém, a madeira estará presente na grande maioria do projeto. A ideia do uso “massivo” de madeira num edifício é a princípio pra deixá-lo mais leve, com uma construção mais racional, já que é toda pré-fabricada e a madeira pode ser usinada facilmente numa CNC ou num braço robótico, e principalmente pra “equilibrar” o gasto energético na obra com menos materiais que produzem CO2 (como o aço e o concreto) e mais materiais que sequestram CO2 (como a madeira).

Não digo que foi o CLT que mudou o panorama e permitiu prédios em madeira. Já existem prédios de madeira desde o século passado, porém o CLT representa a era da “madeira engenheirada”, pois este painel estrutural pode “substituir” blocos estruturais e lajes ou steel decks com facilidade, leveza e sustentabilidade. O CLT tem altíssima resistência, é relativamente fácil de produzir e usa muita madeira. O ganho energético é enorme, afinal construir com madeira é como se a gente construísse com CO2, já que a “poluição” foi sequestrada pela árvore em seu crescimento.

Foto da capa: Projeto do Edifício Amata (Divulgação)
Por Joyce Carvalho para o Portal Madeira e Construção
Edição série especial: Juliane Ferreira

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