Sobre eucaliptistas e pinófobos

21 de Março de 2016

Adoro neologismos e sobretudo, Julio Cortázar.

O fato é que tenho me deparado com o assunto da disponibilidade de madeiras para serraria, em todas as áreas e segmentos voltados à construção em madeira.

Existem os defensores de uma ou de outra espécie e essa discussão passa naturalmente pela facilidade e disponibilidade de certas espécies sobre outras, corroborando com a tese de que a melhor madeira é aquela que se consegue com mais facilidade e melhor preço.

Cada madeira é uma matéria-prima única, com singularidades de trato e comportamento também únicos, fazendo com que a experiência arduamente adquirida se torne um bom motivo para acalmar aventureiros e perpetuar a dependência em cima de uma única espécie.

Ao trabalhar com uma única espécie, diminuímos as possibilidades de ajustes mercadológicos, porque a demanda concentrada irá encarecer o produto final. Nossa matéria-prima, aparentemente abundante e disponível, na realidade acaba custando muito mais caro do que o valor proporcional oferecido aos mercados chileno ou europeu.

Há diversas razões para isso: o chamado “custo-Brasil”, que é o alto custo operacional, a carga de impostos e a ineficiência e o baixo aproveitamento da matéria-prima em geral;

o mercado das madeiras exóticas provenientes de plantações, com a eterna concorrência da celulose e papel, que dita as regras sobre o volume de madeira para serraria em função das demandas da celulose no mercado internacional.

O Chile é uma referência que precisa ser observada sempre que se fala em construção em madeira e teve seu grande momento com o incentivo à plantação de florestas para serraria, por volta dos anos 1970, visando, na época, um produto para exportação. Na década de 1990, quando a oferta começava a chegar à maturidade, os chilenos perceberam que essa matéria-prima, aliada à cultura madeireira existente, poderia ser desenvolvida localmente e a adesão de arquitetos de renome e a criação de empresas de produção de tecnologias engenheiradas, teve enorme impacto na consolidação desse processo. Hoje o Chile, tendo alcançado invejável maturidade, começa a exportar matéria-prima excedente e tecnologia no desenho e manejo de peças industrializadas.

Precisamos de um esforço concentrado na consolidação e na oferta consistente de matéria-prima de várias origens, porque a melhor resposta, como sempre, é dada pela diversidade de opções e produtos oferecidos.

Hoje temos recursos que nos permitem um nível de conhecimento antecipado e previsibilidade comportamental das espécies que certamente nos credenciam a experimentar mais e variar o leque de oferta de produtos, diminuindo a dependência de fornecedores limitados.

É necessário também um investimento em pesquisas e ensaios laboratoriais que definam padrões de comportamento desejáveis aos produtos industrializados e que estes alcancem as prateleiras de distribuidores, reduzindo os custos a partir do aumento da oferta e de bons exemplos de usos construtivos.

Esse é o caminho para homologação das construções em madeira pelos órgãos ligados à certificação e ao financiamento de obras totalmente feitas com madeira.

Quem sabe em um futuro próximo tenhamos também Tekeiros, Paricasistas, Pequiaristas, e outros, construindo um mercado de fato com produtos industrializados e uma oferta condizente com a vastidão do nosso potencial agroflorestal.

 

Por Marcelo Aflalo,  arquiteto, sócio-fundador da Univers Arquitetura e Design

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