Vou assoprar e assoprar…

17 de Maio de 2016

Na fábula, o lobo derruba a casa de palha e a casa de madeira, mas seu fôlego tropeça na casa de alvenaria. Esse desenlace é uma boa metáfora para a distorção cultural sobre a percepção de fragilidade e a pouca durabilidade das construções de madeira no Brasil. Fosse uma pisada tão forte que provocasse um pequeno terremoto, somente a casa de alvenaria desabasse, a história poderia ser outra.

O fato é que o preconceito contra as construções em madeira tem sido um dos mais difíceis obstáculos a ser transposto para a consolidação da madeira como matéria-prima em pé de igualdade com as tecnologias convencionais como o concreto e o aço.

As culturas europeias não mediterrâneas sempre tiveram na madeira um material de qualidade durável ao ponto de ainda hoje serem encontradas centenas de construções com dois a três séculos de existência. Mesmo com madeiras de baixa e média densidades, essas construções mantêm suas propriedades estruturais íntegras e funcionais. O envelhecimento das fachadas confere a essas obras uma dignidade tal, que raramente são substituídas por novos revestimentos, seja em madeira ou outro material.

As características peculiares do clima nessas regiões, em geral seco, ajuda a preservação da madeira sem a necessidade de aplicação de preservantes ou produtos como o stain.

As construções em madeira no oriente, principalmente no Japão, aplicam um recurso mais elaborado, através de um revestimento de madeira sobre a estrutura original – em geral, decorativos – cuja principal função é a de proteger a estrutura, sendo regularmente substituída por novas e diferentes placas. São as chamadas “tábuas de sacrifício”.

Já a arquitetura brasileira deriva de raízes ibéricas, onde as técnicas construtivas e materiais refletem o ambiente natural, árido e pobre em termos de diversidade florestal e essa linguagem confunde-se com a noção de solidez e durabilidade transferidas durante a colonização.

Por algum tempo, essa linguagem somou-se ao ambiente natural e uma arquitetura genuinamente local apresentou-se, identificada como “casa bandeirista”. De fato, essa arquitetura que combinava estrutura de madeira e fechamento de adobe ou pau-a-pique espalhou-se pelas trilhas bandeiristas na ocupação do sertão brasileiro.

Com telhados de inclinação variável e grandes beirais protetores, essa linguagem era perfeitamente adequada ao jargão popular das “botas de cano alto e chapéu de abas largas”, que tão bem descrevem e protegem essas construções.

Com o tempo, a urbanização e as novas tecnologias foram diminuindo os beirais e substituindo-os.

A difícil missão que a arquitetura brasileira tem pela frente, se realmente deseja oferecer essa alternativa mais sensata, é a conversão desses valores culturais deformados em um leque de opções construtivas de baixo impacto ambiental.

Isso só pode ser conseguido com a disseminação, em todos os níveis e para o público mais diverso, de informação acessível e uma cadeia construtiva que atenda às necessidades desse mercado.

Do ponto de vista ambiental, a madeira oferece uma enorme vantagem sobre qualquer outro material disponível, principalmente, pelo simples fato de ser renovável. Esse status nenhum outro material usado na construção civil pode ostentar. O consumo de energia utilizado na sua transformação é consideravelmente menor, porque o material in natura se aproxima muito do produto final.

 

Por Marcelo Aflalo,  arquiteto, sócio-fundador da Univers Arquitetura e Design

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