XVI EBRAMEM: experiências latino-americanas mostram que é possível avançar no uso da madeira nas construções

28 de Março de 2018

O professor chileno Juan José Ugarte chamou atenção para um dado: nos próximos 25 anos o planeta precisará de mais 2 bilhões de habitações para atender as pessoas que sairão do campo para as cidades

Os vizinhos latino-americanos têm muito a ensinar ao Brasil quando o assunto é uso da madeira na construção. Com a participação de professores do Chile, da Argentina e do Uruguai, o segundo dia do XVI EBRAMEM (Encontro Brasileiro em Madeiras e em Estruturas de Madeira) e do III Congresso Latino-americano de Estruturas de Madeira apresentou aos participantes as experiências desses três países.

Para o professor Juan José Ugarte, da Pontifícia Universidade Católica de Santiago, no Chile, é preciso ter em mente o impacto das construções nos próximos 25 anos em relação à sustentabilidade do planeta. Segundo Ugarte, o mundo precisará de mais 2 bilhões de habitações para receber as pessoas que irão se deslocar do campo para as cidades. Somente no Chile, esse déficit deve chegar a 400 mil residências. Esse cenário apresentado pelo especialista indica caminhos viáveis para o uso da madeira. “Em 8 minutos crescem árvores suficientes para construir uma casa. Em 35 dias, temos madeira para suprir o déficit habitacional de todo o país”, afirmou.

Para alavancar as construções em madeira no Chile, o país conta com uma iniciativa chamada Centro de Inovação em Madeira, que reúne universidades chilenas e internacionais, instituições públicas e indústrias do setor de madeira. O objetivo é desenvolver ações para fortalecer o uso da madeira em estruturas. Entre os trabalhos realizados estão o estudo de um prédio de quatro pavimentos em situação de terremoto e o desenvolvimento de cursos de formação profissional. “Se não desenvolvermos a habilidade de projetar com a madeira, não será possível ser competitivo com outros materiais. Precisamos tirar o melhor proveito do material, por isso a importância de investir em pesquisa e formação de professores”, defendeu Ugarte.

Segundo dados apresentados pelo professor, as construções em madeira já demonstram crescimento no país. “Há alguns anos, construções novas em madeira representavam 10% do total. Esse número passou para 18,1%”, afirmou.

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Projeto no Chile de construções em madeira

Um dos ícones da construção com madeira no Chile é o conjunto de 352 moradias no Atacama, único conjunto de habitações sociais com classificação A em consumo de energia no país. Além disso, já há uma torre experimental de 19 metros de altura. Em meio a tantas iniciativas positivas e apoio governamental para o avanço desse tipo de construções, os chilenos se preparam agora para sediar, em 2020, o World Conference on Timber Engineer (WCTE).

 

Segundo dia do evento realizado em São Carlos (SP), que acontece simultaneamente ao III Congresso Latino-americano de Estruturas de Madeira, apresentou aos participantes exemplos positivos de países vizinhos

 

Aumento do uso da madeira passa definição de normas técnicas

Um dos temas que permeou as apresentações do segundo dia do EBRAMEM foi a normalização de produtos e sistemas construtivos com madeira. Assunto que já faz parte também das preocupações do Brasil para alavancar o uso da madeira na construção civil.

A professora Maria Alexandra Sosa Zitto da Universidade Tecnológica Nacional, da Argentina, falou sobre a evolução das normas no país. Em 2000, a Argentina passou a se preocupar com a qualidade de construções em MLC (Madeira Lamina da Colada) e com isso foi criada uma norma específica para estruturas de madeira, baseada no EUROCODE 5 (código europeu), além de outras normas relativas à madeira laminada colada. Com isso, em 2013 a madeira foi considerada um material viável para uso estrutural e, este ano, o governo argentino reconheceu que sistemas construtivos em madeira podem ser considerados como tradicionais, viabilizando, assim, a possibilidade de financiamento para essas construções.

De acordo com a professora, a norma argentina é baseada em quatro espécies de madeira: álamo, pinus (taeda ou ellioti), araucária, eucalipto grandis. Além disso, recentemente ficou determinado que 10% das construções sociais financiadas pelo governo serão feitas em madeira. O país deve publicar também um Guia prático da Construção em madeira da Argentina.

Já a professora da Universidade da República, no Uruguai, Vanessa Baño, revelou que, apesar do país ter iniciado os investimentos em pesquisas e formação de profissionais, ainda faltam normas para cálculo estrutural em madeira e para classificação de madeira e requisitos de fabricação. Na avaliação de Vanessa, será preciso superar legislações regionais que não permitem o uso da madeira na construção. Uma das possibilidades que vem sendo estudada é a adoção na íntegra do EUROCODE 5, da Europa, com a redação de um anexo nacional que atenda as particularidades do país.

Apesar das dificuldades, algumas iniciativas começam a aparecer no Uruguai, segundo a professora, principalmente nas construções residenciais, galpões e pontes com MLC e CLT.

Já o professor da USP, Carlito Calil Junior, destacou o trabalho que vem sendo realizado para revisão da NBR 7190 – Projeto de Estruturas de Madeira. Na apresentação que fez, o professor mencionou o trabalho realizado pelo Laboratório de Pesquisas de São Carlos, desde a década de 1990, para o desenvolvimento de sistemas construtivos de pontes e passarelas, além de dormentes e cruzetas para energia elétrica.

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Por Juliane Ferreira com informações do engenheiro Guilherme Stamato 

 

XVI EBRAMEM: conhecimento técnico e acesso a informações de mercado

 

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