Brasil pode adotar a tecnologia aprendendo com os “erros” de outros países

17 de setembro de 2018

Expectativa é de que o tempo de adoção de sistemas construtivos em madeira em larga escala no País seja de 10 a 20 anos

Arquitetos, engenheiros e especialistas envolvidos no projeto do Edifício Amata e na construção dos primeiros prédios em madeira no Brasil garantem: a adoção desta tecnologia não tem mais volta no País. Ainda não é possível afirmar se haverá uma escalada de edifícios em madeira em curto prazo no território brasileiro, mas todo o processo por aqui está seguindo a mesma trilha já percorrida por outros países.

Para o engenheiro Alan Dias, um dos profissionais mais especializados em madeira engenheirada no Brasil, o Edifício Amata será um “divisor de águas”. Ele afirma que construir grandes prédios em madeira depende de um alto nível de conscientização, desde a cadeia produtiva da madeira até a população.

“Podemos sim chegar a um nível como o do Canadá e de outros países e com muito bons resultados, porém ainda é preciso um longo caminho até que isso aconteça, infelizmente. Nos países onde já se constrõem prédios assim houve uma conscientização coletiva de toda a população, estudantes de engenharia, arquitetos, construtoras, houve incentivo do governo para pesquisas na área, a própria mídia incentivou. Foram criadas revistas especializadas; fundações institucionais sobre madeira; as normas foram atualizadas para homologar os produtos, por exemplo. Enfim, toda a cadeia madeireira, desde a floresta até o edifício de madeira; precisa funcionar como uma orquestra”, salienta.

Construção do edifício Albina Yard, nos Estados Unidos (Foto: Divulgação)

Dias afirma que a “largada” já foi dada no Brasil e que a “era” da madeira engenheirada deve chegar como reflexo do que acontece em outras regiões do mundo. “Creio que assim que esse tipo de construção se consolidar nos Estados Unidos, por exemplo, onde nasceu nos últimos anos a maior empresa de construção em madeira da América, a Katerra, os construtores brasileiros vão acordar. E aqui tem madeira que não acaba mais. Só não avançamos porque não queremos. Mas vai acontecer”, opina.

A CEO da Amata – empresa de base florestal por trás do projeto do Edifício Amata, Ana Bastos, faz uma ressalva: em qualquer mercado, existe um tempo de adoção para novas tecnologias. Às vezes, ele é um pouco mais rápido; às vezes, um pouco mais lento. “Assim como ocorreu com outras tecnologias na construção civil, com outras matérias-primeiras, houve um ciclo de adoção, que variou entre 10 e 20 anos. Com a madeira não será diferente, mas vai acontecer”, enfatiza.

Este atraso do Brasil no uso desta tecnologia tem a sua vantagem: o País pode aprender com os erros e desafios enfrentados por outros países que hoje estão com a tecnologia da madeira engenheirada consolidada. E isso pode “encurtar” o caminho neste ciclo de adoção. “Talvez no Brasil, esta curva possa ser alterada porque já existe a tecnologia, ela já não é mais novidade. Mas, mesmo assim, ainda será quebrando barreiras”, opina Patrick Reydams, diretor industrial da Amata.

“A aplicação do CLT na construção de prédios de média altura começou há cerca de 15 anos e foi necessário romper muitas barreiras para chegar nas construções próximas dos 20 andares, como temos hoje. Demandou tempo para quebrar estes paradigmas na Europa e no Canadá. Na construção do primeiro prédio para uma universidade da British Columbia no Canadá, não havia normas, não tinha licenciamento específico. Mas este prédio desencadeou toda uma série de cálculos, tecnologia aplicada que hoje está consolidada. E assim vimos uma sequência de projetos na Austrália, na Nova Zelândia e em outros países”, relata Reydams.

Uma das regiões que mais está avançando na construção de edifícios em madeira é os Estados Unidos e, para o diretor industrial da Amata, o diferencial neste caso está na já existente cultura da madeira na construção civil dos norte-americanos. “Os Estados Unidos já eram fortes neste sentido e tinham tecnologia. No entanto, agora estão trabalhando forte, desenvolvendo mercado, fortalecendo a educação e a capacitação para consolidar este segmento. E no Brasil não poderá ser diferente”, considera.

Foto: Reprodução / Wood Works, programa do Wood Products Council

Caio Bonatto, CEO da Tecverde – empresa paranaense que deu o start no Brasil com a construção de edifícios de até quatro pavimentos, mas no sistema construtivo woodframe -, vê no “horizonte brasileiro” mais edifícios de madeira. Ele também fala em curva de adoção, inclusive implantando inicialmente projetos de um custo mais alto – até porque não existe possibilidade em um estágio inicial de fornecer escala de produção e baratear um empreendimento – para mostrar ao setor da construção civil, à indústria da madeira e à toda cadeia como a tecnologia é viável.

“É uma realidade e faz total sentido pela quantidade de florestas plantadas que a gente tem, pelo fato de cada vez mais a gente precisar se preocupar com sequestro de carbono, pela eficiência térmica e acústica das edificações. É algo que, como qualquer outra tecnologia, vai nascer focado em produtos mais exclusivos, mais de alto padrão para trazer a curva de adoção. E, conforme o custo da tecnologia for reduzindo, a tendência é o custo desta tecnologia escalar no Brasil também”, comenta Bonatto.

“Lá fora (Estados Unidos e Canadá), a cultura já é de construção de madeira; no Brasil, estamos mudando de uma cultura de construção em concreto para uma com madeira. Então, temos dois aspectos: mudar a cultura construtiva no Brasil e construir edifícios altos com esta outra tecnologia. Lá fora isso começou a acontecer a partir do momento em que se viu valor no uso da madeira como elemento durável; quando se passou a ter incentivo na redução de taxas de juros para uso da madeira; as certificações ambientais passaram a valorizar o uso desta tecnologia; quando o próprio setor privado valorizou prédios que tivessem um apelo sustentável maior e com menor geração de carbono”, declara.

De acordo com Bonatto, este ambiente mais favorável acabou propiciando uma adoção da tecnologia em maior escala no exterior, para ele, isso não será diferente no Brasil. Por aqui, já existe mobilização da cadeia florestal e industrial para estruturar a madeira engenheirada como um negócio e, assim, fornecer a escala necessária para atender todos os lados envolvidos neste setor.

Resistência cultural

Quando Bonatto fala em mudar a cultura construtiva, isso não passa apenas em mudar a “cabeça” do empresário do setor da construção civil. O brasileiro ainda tem uma resistência para comprar e morar em casas de madeira, imagina então falar em edifícios de madeira.

As estruturas feitas com este material ficam “escondidas”, a exemplo do que acontece nas construções em outros locais do mundo, e os acabamentos dão a cobertura completa ao imóvel. A Tecverde fez um vídeo de animação para explicar ao cliente final quais são a durabilidade e a resistência de um imóvel de madeira, lembrando que a empresa tem entre seus consumidores desde os de alto padrão até os que entraram pelo programa Minha Casa, Minha Vida.

Foto de destaque: Reprodução / Wood Works, programa do Wood Products Council

Por Joyce Carvalho para o Portal Madeira e Construção
Edição série especial: Juliane Ferreira

 

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