É preciso mais do que projetos para construir um edifício de madeira

17 de setembro de 2018

O primeiro prédio construído em madeira no Brasil, erguido com o sistema construtivo wood frame, está em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba (PR). A empresa paranaense Tecverde finalizou a montagem, no dia 24 de agosto de 2016, um prédio de três pavimentos em 64 horas, com jornadas de oito horas diárias, em uma parceria com uma construtora.

A montagem foi acompanhada por diversas construtoras, empresários, profissionais do setor da construção civil e entidades do segmento. Além do pioneirismo em si, o empreendimento foi o primeiro da empresa no programa Minha Casa, Minha Vida e obteve financiamento da Caixa para isto. Desde então, a Tecverde já desenvolveu e montou outros edifícios com esta mesma tecnologia.

Para chegar até a este patamar, a Tecverde passou pelos mais diferentes estágios. A empresa foi fundada em 2009, depois de dois anos de pesquisa de novos modelos sustentáveis de construção. A opção foi pelo desenvolvimento do sistema wood frame, aplicado e consolidado em outros países, na realidade brasileira. Naquele momento, não havia homologação da tecnologia em solo brasileiro e a própria Tecverde teve que atuar fortemente neste sentido, além de ajudar a movimentar toda a cadeia de madeira no Estado.

“Começamos fazendo casas de médio e alto padrão, passamos para sobrados direcionados para o público de baixa renda até chegarmos nos prédios de quatro pavimentos, patamar para o qual a tecnologia está homologada no Brasil”, lembra Caio Bonatto, sócio-fundador e CEO da Tecverde.

Os painéis de madeira usados pela empresa para montar as casas e os edifícios são produzidos em uma fábrica, localizada em Araucária. Inicialmente, esta indústria foi montada em Pinhais, também na região metropolitana de Curitiba. Para atingir esta escala, a própria Tecverde foi atrás dos bancos para conseguir financiamento para casas feitas com estrutura de madeira. Bonatto conta que o Banco Santander abriu as portas neste sentido.

Posteriormente, a empresa “correu atrás” da homologação do sistema construtivo para habitações de interesse social e, em 2013, o wood frame foi autorizado pelo Ministério das Cidades para a entrada no programa Minha Casa, Minha Vida.

“Conseguimos fazer, nestes últimos nove anos, que o mercado acreditasse no produto e na tecnologia. A aceitação é quase que unânime do cliente final. O cliente final de baixa renda, que antes era uma preocupação se ele aceitaria uma casa com uma tecnologia diferente, hoje, inclusive, ele prefere uma casa com a nossa tecnologia pelo conforto, pela qualidade dos acabamentos, pela velocidade de entrega. Tem uma série de qualidades mais atrativas para o cliente do que uma casa de alvenaria, por exemplo”, afirma Bonatto.

Unindo sustentabilidade, valorização e negócios

A Amata – empresa de base florestal que tem negócios em várias regiões brasileiras, incluindo o Paraná – resolveu unir diferentes fatores para estimular a cadeia, pensando na diversidade dos produtos florestais e no valor que eles possuem.

“Nosso entendimento é de que é importante ter produtos que tragam valor para a madeira. Há dois anos, fizemos um mapeamento em todo mundo sobre quais seriam estes produtos. Foi assim que surgiu nosso interesse na madeira engenheirada, que tem um enorme potencial como produto e ainda um potencial para um país como o Brasil”, comenta a CEO da Amata, Ana Bastos.

De acordo com ela, a madeira engenheirada é um produto com valor agregado, sustentável, que permite uma construção limpa e rápida, com uso crescente em várias regiões do mundo. Sem falar que a construção com madeira permite reunir grandes estoques de carbono, o que é considerado um ganho importantíssimo por Ana. “Então, por que não no Brasil?”, questiona.

A CEO da Amata salienta que a tecnologia da Madeira Laminada Cruzada (CLT) é um produto que já está avançado no mundo e que ainda pode revolucionar o setor. A tecnologia já permite construir edifícios de 18 a 20 andares e ainda abre o leque para outros tipos de construções, como hospitais e escolas.

Painel de Madeira Laminada Cruzada (CLT) feito de Pinus, da empresa brasileira CrossLam (Foto: Carpinteria Estruturas de Madeira)

O cenário para a oportunidade de negócios ficou completo com outros dois fatores: a floresta brasileira é muito produtiva e o setor da construção civil no País tem um peso enorme da nossa economia. “Matéria-prima e um mercado da construção civil deste porte são duas partes muito importantes desta equação. A floresta passa a ser um produto com valor agregado. Estamos gerando valor. E foi assim que gerou o interesse no negócio”, explica Ana.

O Edifício Amata foi oficialmente lançado setembro do ano passado. Desde então, a empresa está trabalhando na busca de parcerias para tirar o projeto do papel.

Mercado aquecido

O questionamento “por que não no Brasil?” também impulsionou a instalação de novas indústrias no Paraná e, por isso, o mercado brasileiro está em efervescência. A entrada de novos “atores” não para por aí.

A Immergrün Construções Inteligentes, de Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), está finalizando a instalação de máquinas na sua fábrica para iniciar as operações, o que deve acontecer ainda em 2018. Entretanto, este processo começou há seis anos e contemplou várias etapas, incluindo muito burocracia.

Inicialmente, a Immergrün vai se dedicar imediatamente a casas e outros tipos de construções de até dois pavimentos em wood frame, para o qual está em processo de homologação, já com a maior parte dos ensaios realizados. Como sua fábrica também vai reunir as etapas de tratamento da madeira e a montagem das treliças para telhado para as casas, estas também serão unidades de negócio a parte, ou seja, que serão tocadas paralelamente.

“Nossas famílias vêm do setor madeireiro e não víamos sentido na madeira ser descartada, em não ser valorizada, como acontecia na construção civil. Em 2012, tivemos contato com o engenheiro Guilherme Stamato, especialista em estruturas de madeira, da Stamade, e o nosso projeto começou a se levantar. No entanto, esbarramos em muita burocracia, muita negociação. Já poderíamos estar produzindo há algum tempo”, conta Leonardo Lenz, um dos sócios da Immergrün.

Além disso, para ele, foi possível enxergar como oportunidade de negócio o fato da madeira ser um produto sustentável na construção civil, que também precisou se adaptar “aos novos tempos”. Lenz lembra que outros países já passaram pelo processo de se pautarem pela sustentabilidade, inclusive pagando mais caro por isso, e que o Brasil não está fora desta realidade.

O empresário afirma que, quanto mais empresas atuantes, melhor é para o mercado e isso faz com que o setor ganhe corpo. Lenz ressalta que o segmento da construção com madeira necessita deste incentivo para crescer.

Por Joyce Carvalho para o Portal Madeira e Construção
Edição série especial: Juliane Ferreira

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