Madeira: material “high tech”

4 de setembro de 2017

Evento quebra mitos sobre prédios com essa matéria-prima e marca anúncio da Amata  sobre a construção de um prédio de 13 andares em madeira em São Paulo

 

A Casa Natura Musical, em São Paulo, teve cada cadeira reservada à plateia disputada, na última quinta-feira (31). O motivo era um só: conhecer as últimas novidades do material considerado o mais “high tech” dos últimos tempos: a madeira. Com curadoria da Amata, o painel “Arranha-céu em madeira: é possível, é sustentável e é em larga escala” reuniu nove convidados que apresentaram a arquitetos, engenheiros e outros profissionais da construção civil um panorama histórico no Brasil e no mundo sobre o uso do material.

A apresentação da Triptyque – feita pela arquiteta Carol Bueno – confirmou o boato no mercado de que há no Brasil um projeto de lançamento de um prédio feito totalmente em madeira. Em um estilo “avant-première” transmitido via internet, foi apresentado um overview do projeto, iniciativa da Amata que será implementada na Vila Madalena, na capital paulista. Nos 1.025m² de terreno e 4.340m² de área total serão construídos 13 andares que terão como principal impacto o cumprimento do acordo da 21° Conferência do Clima (COP 21) que tem como meta reduzir em 43% a emissão de gases que causam o efeito-estufa até 2030. O lançamento oficial será marcado em breve, mas o que já se sabe é que além da Amata, da Triptyque e da consultoria de engenharia canadense Equilibrium, a Carpinteria Estruturas de Madeira também estará envolvida no projeto.

A Amata e a Triptyque devem compartilhar detalhes deste projeto no 1º Congresso Mundial de Construção Civil em Madeira, o WoodRise 2017, que será realizado entre os dias 12 e 15 de setembro na cidade francesa de Bordeaux. O objetivo é discutir a nova agenda global de construções em madeira, com o propósito de auxiliar a criação de uma economia de baixo carbono. O grupo pretende entender quais são os principais desafios para o desenvolvimento de um mercado imobiliário de edifícios em madeira. Na lista de palestrantes, nomes mundialmente conhecidos da arquitetura, como o arquiteto canadense Michael Green, e o japonês Kengo Kuma.

DELEGAÇÃO BRASILEIRA EM CONGRESSO INTERNACIONAL DE EDIFÍCIOS EM MADEIRA

O exemplo canadense
Para quem ainda tem dúvidas se é possível construir edifícios altos em madeira, a participação do engenheiro Eric Karsh, fundador da Equilibrium – consultoria de engenharia estrutural reconhecida internacionalmente como líder em construções em madeira em altura – no evento foi uma aula. O canadense mostrou que há séculos a madeira é utilizada em construções como templos religiosos, muitos deles intactos até hoje. Depois de apresentar diversos projetos, Eric se mostrou preocupado com a forma como o qual se trabalha arquitetura sustentável ao apontar estudos de que o mundo será 70% urbano em 2050. “Necessitaremos de 3 bilhões de novas unidades residenciais”. Foi possível perceber as diferenças entre Canadá e Brasil no que diz respeito ao uso de CLT (Cross Laminated Timber) na construção civil.  De acordo com Eric, os brasileiros têm todos os requisitos para trilharem um caminho promissor no ramo.

 

Exemplos Made in Brazil
Ainda atrás dos países de primeiro mundo, o Brasil começa a dar espaço para o uso de tecnologias construtivas com madeira. O designer e arquiteto Marcelo Aflalo, colunista do Portal Madeira e Construção, falou sobre a importância do recém-criado Núcleo de Referência em Tecnologia da Madeira e até mesmo iniciativas como a primeira pós-graduação em arquitetura da madeira, que começa este mês da Faap, em São Paulo. “Cada vez mais estamos sendo pressionados (pelo mercado) para a criação de novos métodos construtivos”, afirmou o painelista.

Uma das alternativas que mais chamou a atenção nas apresentações foi a dos arquitetos da MAPA Arquitetos que em Porto Alegre (RS) e Montevidéu (Uruguai) desenvolveram os chamados “minimoods” fazendo uso da tecnologia do CLT ao trabalharem módulos pré-fabricados em que cada um deles é uma unidade de ambiente de uma residência. Já o arquiteto Sérgio Sampaio apresentou a Casa Maria-José que teve como principal marco a ausência de alvenaria em todo o projeto.

O arquiteto Gui Matos fez um dos mais interessantes relatos da noite: mostrou que há trinta anos já trabalhava com o conceito “artesanalmente” no litoral norte de São Paulo quando ainda se manejava com o conceito de encaixe entre as peças. “Madeira é o material mais amigável e intuitivo que existe”, diz o responsável por projetos como o Centro Tecnológico de Jundiaí (SP).

Já o engenheiro Helio Olga e o escritório de arquitetura curtibano Aleph Zero impressionaram ao mostrar a metodologia de construção de Moradas Infantis em Formoso do Araguaia, no Tocantins, em que levaram em consideração os aspectos regionais e respeito espartano à cultura, relevo e clima local. A madeira laminada colada predomina em todo o projeto que causou um grande impacto positivo local. O projeto foi o grande vencedor do 4º Prêmio Tomie Ohtake AkzoNobel de Arquitetura, divulgado em agosto.

E os mitos?
Depois da plateia conhecer exemplos – nacionais e internacionais – de projetos em madeira, quais seriam ainda os mitos (e medos) que as pessoas possuem quando se fala em “prédio construído com madeira”? Assim que todos os painelistas se reuniram em um debate, foi unânime que o maior deles é a falta de informação. Dúvidas sobre a força da madeira em sustentar uma edificação de grande porte, capacidade de combustão, atração de insetos (incluindo o temido cupim) e deterioração de estruturas pela ação do clima e tempo foram as principais questões levantadas pelo público presente e virtual. Todas devidamente esclarecidas do porquê de serem mitos e não mais verdades. “O problema é o desmatamento, não o reflorestamento”, enfatizou Eric Karsh ao ser questionado sobre derrubada de árvores. Gui Matos finalizou sua participação afirmando que ficou fã da construção em madeira a ponto de oferecer aos clientes por constatar que a mesma permite uma construção mais rápida, mais barata e – principalmente – ter números de desperdício de material próximos a zero.

Por Lucas Nobre para o Portal Madeira e Construção
Fotos Lucas Nobre

 

 

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