“Somos desarticulados e precisamos mudar isso”

14 de março de 2016

Nesta matéria, o professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Jorge Daniel de Melo Moura fala sobre os desafios de se construir com madeira no Brasil

O Brasil tem um grande potencial para uso da madeira como material para a construção civil. Uso este, aliás, que traz diversos benefícios tanto para o meio ambiente como para os consumidores, oferecendo vantagens em relação aos sistemas tradicionais. Mas, diante desta realidade, fica a pergunta: por que a madeira não é utilizada em larga escala como nos países europeus, Estados Unidos e até mesmo vizinhos da América do Sul como o Chile?

Na palestra de encerramento do XV Ebramem (Encontro Brasileiro em Madeiras e em Estruturas de Madeira), realizado em Curitiba (PR) entre os dias 09 e 11 de março, o pesquisador e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Jorge Daniel apresentou uma série de desafios que precisarão ser enfrentados pelos profissionais do setor, para que o sistema construtivo avance.

De acordo com dados apresentados pelo professor, apenas no Paraná são 3.700 empresas ligadas à cadeia produtiva de madeira, 75% delas serrarias. O potencial do produto é tão grande que as exportações do segmento representam 5% de todo o volume exportado pelo Estado. Há ainda, segundo Daniel, cerca de 900 mil hectares de floresta plantada.

Jorge Daniel elencou então, que a disponibilidade não é um problema. Mas, se há tanta madeira disponível, há também desafios importante para a aplicação da madeira na construção. Um deles é a necessidade de melhoramento das plantas. Embora isso já venha ocorrendo, com grande ganho de produtividade, densidade e melhoria de aspectos mecânicos por meio de pesquisas de melhoramento genético, as duas principais espécies plantadas no Brasil, precisam deste melhoramento. O pinus, por exemplo, tem alta incidência de nós e propriedades mecânicas que poderiam ser melhores. Já a outra espécie, o eucalipto, possui alta instabilidade dimensional.

“Muito já se avançou com pesquisas bastante profundas sobre o tema, mas é preciso investir em pesquisa e aprimorar ainda mais a qualidade”, afirmou o pesquisador. Além disso, ele defende uma maior articulação entre os diferentes atores do setor: “Temos um monte de associações e informações, dados, pesquisas, mas isso não está conectado. Somos desarticulados e precisamos mudar isso em primeiro lugar”, concluiu.

Veja a seguir os outros desafios elencados por Jorge Daniel:

Secagem

Nós não temos a cultura de realizar a correta secagem da madeira. E isso é incorreto, porque já há comprovação de que a secagem correta da madeira melhora suas propriedades mecânicas entre 15% e 30% e reduz a instabilidade dimensional. Além disso, isso representa uma redução nos custos de transporte, eliminando água desnecessária. A realização dessa secagem não requer aparelhos e equipamentos sofisticados, é uma questão cultural.

Tratamento

Precisamos investir muito em tratamentos mais amigáveis do ponto de vista ambiental, que possam ser biodegradáveis, garantindo ao mesmo tempo a qualidade do produto e a proteção ao meio ambiente.

Classificação

A classificação da madeira, segundo o professor, é outro ponto crítico. Para ele, há equipamentos muito baratos que permitem estimar com segurança as propriedades mecânicas da madeira e, portanto, possibilitam uma classificação dos produtos para a construção civil. “Quando compramos madeira no Brasil, a gente não sabe o que está comprando na verdade, e isso é um grande problema.”

Novos produtos

Jorge Daniel criticou ainda a falta de investimento e conhecimento em novos produtos e no uso da madeira para o aproveitamento de pequenos comprimentos e redução de perdas, que já está mais avançado em outros países. Ele citou como exemplo, o cross laminated timber (CLT), painéis maciços de madeira que estão sendo utilizados na construção de edifícios de até 20 pavimentos, já totalmente regulamento nos Estados Unidos.

Componentes

Outro desafio que deve ser enfrentado pelas indústrias é a produção de componentes para o sistema construtivo wood frame. Segundo o pesquisador, esses componentes precisam ser melhorados para garantir a vedação e evitar a entrada de umidade. “É preciso melhorar a qualidade de caixilhos, esquadrias e todos os componentes para termos um sistema cada vez mais aplicável”, disse.

Resíduos

A gestão de resíduos também é um desafio. Muitas soluções já foram encontradas, mas há ainda bastante o que se pesquisar. Entre os problemas, o professor cita as cascas de eucalipto, que são muito ácidas para a destinação em aterros sanitários e muito agressivas para o uso na pecuária, mas também têm baixo potencial energético para a queima. Neste caso, uma das soluções em estudo é englobar o resíduo na produção de painéis.

Educação

Outro grande fator é a carga horária destinada à madeira nos cursos que formam os profissionais especificadores como arquitetos e engenheiros. “Existe uma diminuição constante de carga horária destinada à madeira, à inovação. Precisamos ampliar isso e proporcionar um trabalho em rede, unindo de forma colaborativa empresas, pesquisadores, profissionais e fornecedores”, avaliou.

Mudança de cultura

Para o professor, no entanto, todos esses aspectos passam por uma mudança de cultura, não só da sociedade, mas das próprias empresas do setor. “Temos um monte de associações e informações, dados, pesquisas, mas isso não está conectado. Somos desarticulados e precisamos mudar isso em primeiro lugar”, concluiu.

Confira também, a entrevista exclusiva que fizemos com o professor Jorge Daniel:

Por Karla Losse Mendes para o Portal Madeira e Construção

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